Postado em: quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Pérolas Esparsas - 09 - A NAÇÃO DA CRUZ

A NAÇÃO DA CRUZ

19/02/2015

Todos que estão atualizados com o noticiário em qualquer tipo de mídia acompanharam o drama terrível daqueles 21 cristãos coptas egípcios que foram mortos por decapitação bárbara e chocante pelos guerrilheiros do chamado Estado Islâmico. Algo que trouxe repulsa ao mundo todo, e tenho certeza de que nossos irmãos islâmicos verdadeiros devem sentir doer em suas próprias almas aquela carnificina, entristecidos e envergonhados que estão por ver sua crença confundida com aqueles assassinos.

Os coptas são descendentes dos antigos egípcios, que se converteram ao cristianismo no I século, formam atualmente 10% da população egípcia e são tratados como cidadãos de segunda classe. 90% dos cristãos coptas pertencem à Igreja Ortodoxa Copta. Os 10% restantes se dividem entre a Igreja Católica Copta e a Igreja Protestante Copta.

Longe está desse texto qualquer intenção de ideologizar ou politizar aquele fato de terror, penso que não temos o direito de teorizar friamente em cima de um crime tão hediondo que marcou para sempre diretamente as vidas de vinte e uma famílias como a minha e a sua, bem como todo um país.

Eu cheguei a ver o vídeo preparado pelo EI, com requintes de produção e vinhetas, e que retratou toda a caminhada que os algozes fizeram com suas vítimas até chegarem a uma praia tranquila do Mar Mediterrâneo, onde a execução se deu, após a leitura de textos, ameaças, cânticos e palavras de ordem. Vídeo estarrecedor, cujo título era "Uma mensagem assinada com sangue para a nação da cruz". Confesso que na hora "H" fechei os olhos, tão estupefato fiquei com tudo aquilo, vendo depois apenas a finalização do vídeo, com as suaves marolas na praia tingidas pelo sangue daqueles mártires. Mas duas coisas me chamaram a atenção e me levaram a esta reflexão.

Uma delas, e foi a que mais me impressionou, foi a firmeza e aparente tranquilidade e ausência de medo com que caminharam para a morte, lado a lado com seus carrascos, sem tropeçar, sem tentar atrasar a marcha, sem chorar ou demonstrar desespero.

Eram todos homens relativamente novos, fortes, e independente do que seguramente lhes ia na alma naquele instante, cumpriram um bonito papel que confirmava sua propalada fé. Nem mesmo quando lhes foi ordenado que se ajoelhassem para o ato final houve algum que hesitasse.

Soube depois que ali só havia vinte, não sei se um deles renunciou, se foi poupado ou se já havia sido morto antes. Também não cheguei à mórbida atitude de contá-los. Foi divulgado depois que um deles, focado em close, disse como sua última palavra pronunciada o nome de Jesus, enquanto outros recitavam orações.

E o outro detalhe que me tocou muito foi que os carrascos denominaram aqueles mártires bem como os fiéis de sua crença como a Nação da Cruz. Penso que não poderiam ter escolhido melhor qualificativo para quem conscientemente abraça o evangelho puro de Cristo Jesus. Imediatamente veio-me à mente o texto de Marcos 8:34:

"Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.". E Lucas 9:23 diz assim: "... tome dia a dia a sua cruz e siga-me."

É isso mesmo que somos, ou pelo menos deveríamos ser, todos nós cristãos, independente das diversas denominações em que tristemente nos fraccionamos: a Nação da Cruz, com nossa carga diária de responsabilidades com essa designação.

Fico pensando que muitas vezes vivemos nossa opção religiosa numa espécie de euforia sem fim, embalados por momentos de exaltação ruidosa, sem reflexão maior em relação ao mundo e à hora que vivemos, e nessas ocasiões nos parecemos muito pouco com a Nação da Cruz.

Antes que alguém diga que o cristão deve ser alegre, feliz, radiante, não precisa viver fechado, deprimido e sorumbático, eu quero dizer que concordo, claro, e não é disso que estou falando. O que quero trazer à reflexão - e ninguém precisa concordar comigo - é que nosso chamado para viver uma vida abundante, plena de antegozo pela glória que um dia teremos, é também, e talvez até antes de tudo o mais, um chamado para carregar uma cruz.

Além disso, Jesus não nos pediu que carregássemos a Sua cruz, como erradamente às vezes pensamos, Ele pediu que cada um carregasse a sua própria cruz, as suas próprias mazelas, fizesse as suas próprias renúncias e escolhas. E é claro que Ele não nos deixará fazer isso sozinhos, entregues à nossa própria sorte. Como Pai amoroso, caminhará conosco todas as milhas necessárias, e também nos concederá alegrias e momentos de puro júbilo ao longo do caminho.

Não acho que Jesus tenha levado aqui uma vida entristecida e infeliz, imaginem se essa seria a Sua postura, por exemplo numa festa de casamento. Mas, a importância e seriedade de Sua missão de tirar o pecado do mundo, certamente O conduziu muitas vezes a momentos de angústia e lágrimas.

E embora não haja na Bíblia relatos em que tenha sido visto sorrindo, há pelo menos um momento em que Ele manifestou alegria no Espírito Santo. Está mencionado em Lucas 10:21, e a razão daquela alegria tinha tudo a ver com Sua missão: foi por ver o fruto do trabalho de evangelização feito pelos 70 que havia enviado, após haverem afrontado o reino das trevas, e por saber que aquilo significava a vitória do reino de Deus:

"Naquela mesma hora, se alegrou Jesus no Espírito Santo e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos.".

Chego a imaginar Jesus com o rosto radiante, vislumbrando "Satanás caindo do céu como um raio", como narra o texto bíblico, saltando e socando o ar naquele gesto conhecido pelos jovens e dizendo, alto e bom som: "YES. Era isso que eu esperava desses discípulos que Me deste, Pai. Muito obrigado!"

Espiritualmente somos "... a raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz." I Pedro 2:9.

Que privilégio e responsabilidade! Vamos, pois, viver nossa vida temporal, apreciando e desfrutando as bênçãos que Deus em Seu propósito nos der, mas sabendo e nunca perdendo de vista, que somos, acima de tudo, a Nação da Cruz!

"Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo.". Gal. 6:14.

Mário Jorge Lima./
São Paulo, 19/Fevereiro/2015.

Autor: Mário Jorge Lima
São Paulo, 19/Fev/2015.
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso [a salvação pela graça] não vem de vós; é dom de Deus.” Ef. 2:8.

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