Postado em: quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Reflexões Sobre a Graça - 04 - A CONSTRUÇÃO

A CONSTRUÇÃO - Inocente, não sabe de nada!

Atrás da casa onde moro há uma construção, já há dois anos, que levanta mais um grande edifício de apartamentos. Tenho sofrido na pele, nos olhos, nos ouvidos, na sujeira e poeira constante, todos os transtornos causados por essa obra, desde as fundações até onde ela se encontra hoje, já nos seus pisos mais elevados. É o crescimento vertiginoso da cidade de São Paulo, onde quase já não há mais bairros que tenham somente casas baixas.

De manhã cedinho, ainda escuro, estou pronto a levar minhas filhas às escolas onde elas estudam, fico no portão de casa esperando por elas, e vejo os trabalhadores que chegam para essa obra. São muitos, quase todos, aparentemente, de origem humilde, provavelmente vindos de bairros muito distantes, dos quais saem ainda de madrugada. Chegam com suas mochilas, onde marmitas e sanduiches, talvez feitos às pressas, sem muito esmero ou variedades, estão guardadinhos esperando pela hora do almoço.

Eles vêm em pequenos grupos, conversando, dando risadas, alguns cantam pela rua, fazem algazarra talvez para espantar o frio, enquanto outros são mais solitários e calados. As faixas etárias deles são variadas, muitos são jovens e fortes, andam rapidamente, outros mais idosos, de aparência já cansada, andam devagar, e alguns até mostram sequelas físicas, talvez decorrentes de acidentes de trabalho. Vão surgindo na esquina e caminhando para o local da construção. São pontuais, não se atrasam, já conheço vários deles, de vista e pelos rápidos cumprimentos que trocamos.

Ali entre eles, provavelmente há alguns com pouca ou nenhuma experiência, com maior ou menor habilidade em suas atividades, diferentes níveis de profissionalização enquanto outros têm experiências de muitas obras e tipos de construções e obras públicas das quais participaram. São pedreiros, carpinteiros, ladrilheiros, encanadores, eletricistas, aplicadores de pisos e carpetes, viradores de massa e concretagem, enfim, uma gama variadíssima de aptidões.

E o prédio cresce a olhos vistos, imponente, bonito, às vezes até assustador. Eu vejo aqueles homens rijos e rudes, a chamada “peãozada”, feios de aparência e toscos no vestir e em seus modos, e olho a bela construção que surge como resultado do seu trabalho, e penso: é certo que há os arquitetos, engenheiros, mestres de obra, encarregados, mas são esses trabalhadores humildes que, de fato, levantam a construção, são eles que constroem e dão vida a mais uma bela torre de apartamentos ou escritórios, é a partir daquelas mãos calejadas e doloridas que tudo acontece. E nutro uma grande admiração por essa massa anônima, mal paga, desprezada e sofrida.

E, nesses momentos penso que uma construção talvez seja uma das melhores metáforas do que vem a ser a igreja de Deus. Nela, pessoas das mais variadas habilidades, ou até mesmo, com nenhuma aptidão, com ou sem experiência, jovens, velhos, ágeis ou cansados, homens, mulheres e crianças, erguem dia a dia uma comunidade de crentes, um prédio espiritual que possa ser morada do Deus Altíssimo.

É certo que há os administradores, os ministros e pastores, os obreiros, as lideranças chamadas leigas, os professores, instrutores e oficiais, com seus variados graus de importância, mas é a “peãozada” que levanta a igreja. É a irmandade humilde e até mesmo anônima, são os que ralam os joelhos em oração, os visitadores, os que participam de ministérios menores e menos conhecidos e divulgados, os serviçais da igreja, aqueles que quase nunca vão à frente da congregação ou são reconhecidos, não fazem parte das comissões de igreja, não tocam, não cantam, não pregam, não coordenam uma lição da escola bíblica, não dirigem grandes departamentos, não participam de grandes promoções e eventos, raramente são notados.

Paulo, o grande herói da fé, assim escreveu em Efésios 2:19-22:

“Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.”.

Todos, independentemente de nossas funções, responsabilidades e privilégios, temos o mesmo grau de importância para Deus. Apenas Jesus, a pedra angular, é relevante e proeminente. Sabemos cantar, tocar, pregar, ensinar, administrar, somos ou achamos que somos conhecedores profundos da doutrina bíblica, temos as melhores idéias e a visão mais clara sobre tudo, temos as soluções mais inteligentes e criativas, somos cristãos cultos e elegantes? Que ótimo, amém por isso! Mas, vejamos o que disse Paulo em II Cor. 4:7:

“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.” Portanto, não nos iludamos. Todos, em todos os níveis, não passamos de simples e toscos vasos de barro. Somos absolutamente carentes da graça de Deus, salvos por ela e não por qualquer qualificação que tenhamos ou venhamos a ter. E usando uma frase tola, muito vista na Internet, poder-se-ia dizer a respeito de qualquer de nós, se pensarmos que somos mais que isso: “Inocente, não sabe de nada.”

Autor: Mário Jorge Lima
São Paulo, 20/Ago/2014.
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso [a salvação pela graça] não vem de vós; é dom de Deus.” Ef. 2:8.

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