Postado em: segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

No Espelho

Eu moro em um bairro aqui em São Paulo, chamado Vila Clementino, que já foi, quando vim pra ca há alguns anos, o que o Grajaú e a Tijuca foram no Rio de Janeiro nos anos 60/70, um mar de tranquilidade. Hoje já não é, mas não é dos piores, ainda tem muitas casas e até ruas de paralepípedos, com árvores que recebem revoadas de pássaros de todo tipo, e eu gosto muito das calopsitas, pelo barulho que fazem.

Uma das minhas tarefas em casa, cedinho, antes até de levar minhas filhas ao colégio, é sair pra comprar pão fresquinho. E gosto quando estou com tempo e posso ir a pé. É um dos raros momentos do dia em que caminho, deveria fazer muito mais, até pelos meus problemas coronarianos.

Por estranho que possa parecer, esse é um dos momentos em que eu falo e gosto de falar com Deus. Olhando as pessoas nas ruas, cumprimentando idosos como eu, vendo os que correm para o trabalho, os que saem com seus cachorros, o trânsito começando a enlouquecer, sinto claramente a influência de Seu Espírito nessas horas, atuando sobre o meu lobo frontal, que alguns cientistas chamam ponto-Deus. Não poucas vezes, como hoje, voltei dessas caminhadas com idéias novas para textos, poemas, letras e projetos espirituais. Não poucas vezes reconsiderei atitudes minhas e coisas que fiz e falei. Não poucas vezes sentei-me na mureta de alguma casa ainda fechada, numa rua tranquila, pra orar. Algumas vezes pra chorar. Se alguém já prestou atenção em mim nesses momentos deve ter pensado: esse aí tem Alzheimer (rsrs).

Hoje cedo estava pensando na capacidade que Jesus tinha de ler corações (mentes). Não que Ele vivesse como um fiscal severo e atento a cada erro dos Seus discípulos e do povo em volta, mas sempre que o Mestre identificava uma oportunidade de intervir numa situação qualquer, com Seus conselhos amoráveis ou Sua ação corretiva, Ele o fazia, e essa característica de saber o que pensavam ou falavam às escondidas Lhe dava possibilidade de ir direto ao ponto, com sabedoria e sem margem a erros de interpretação. Capacidade essa - é bom anotar - que nós não temos.

Lendo os Evangelhos também podemos perceber que Ele era especialmente duro com aqueles que, a serviço do reino das trevas, executavam ações mesquinhas, diretamente sob as ordens e os planos de satanás, para O apanharem em armadilhas ou atrapalhar Seu projeto de tirar o pecado do mundo. Com esses não havia negociação, provavelmente já eram casos perdidos. Mas, com os miseráveis, os doentes, com a escória da terra, com as prostitutas e pecadores de todo tipo, com aqueles que tinham sinceras dúvidas e questionamentos, sendo assim todos vítimas dessa guerra cósmica entre Ele e satanás, Jesus era suave, doce, restaurador, não condenava, apenas estendia Seus braços de amor e olhava-os com misericórdia. Podia julgá-los, mas não julgava. Seu coração se compadecia, pois sabia que eram como ovelhas que não tinham pastor. Não raro, chorava.

E nas Suas avaliações, como já disse, não havia qualquer possibilidade de erro. Jesus nunca usou seus poderes divinos em benefício próprio, mas certamente os usava em benefício da humanidade que viera salvar. E como era o Filho de Deus e lia as intenções e motivações mais escondidas dos corações, era o único que podia fazer as abordagens necessárias e condizentes com cada caso. Jesus era o único que podia tirar o cisco do olho alheio sem se preocupar primeiro em tirar a trave do próprio olho. Jesus era o único que podia fazer o bem com a mão direita sem se preocupar com esquerda. Jesus era o único que não precisava pedir perdão.

Fiquei emocionado enquanto caminhava e pensava nisso e confesso que meus olhos ficaram turvos com algumas lágrimas teimosas. Até agora mesmo, ao escrever esse texto, elas insistem em aparecer. Não tenho essa capacidade de Cristo e nem de longe possuo o Seu amor imenso. Puxa, como eu falho nas minhas avaliações! Faço isso com as criaturas que mais amo, minhas próprias filhas e minha família! Faço também com meus amigos, com meus vizinhos, com os não-crentes, com os que não vivem, pensam ou creem como eu, com os irmãos da minha própria fé! Quantas vezes esqueci que "chamar o pecado pelo nome" significa necessariamente começar chamando assim os meus próprios erros! Até Deus mesmo fez isso quando numa profecia profilática e radical a Ezequiel, mandou começar pelo Seu santuário. Minha vida e meu corpo são um santuário para Deus, portanto, qualquer ação corretiva ou admoestadora da minha parte, deve necessariamente começar por mim mesmo.

Pedi e peço a Deus então, que nesse dia, e em todos os outros daqui pra frente, eu faça assim. Como que olhando num espelho (não é sem razão que Sua lei é comparada a um) eu fale pra mim, tente apreender em meu próprio olhar se ele é sincero e amoroso, cheio de misericórdia e graça com deveria ser. Que eu dê o "sonido certo à trombeta", mas com a abertura dessa trombeta voltada inicialmente e sempre para minha própria vida. E então saberei que, se chegar a admoestar alguém, seja uma filha minha, seja um amigo, seja um irmão de fé, eu já estou em paz interior com meu Deus, já tirei os empecilhos todos que poderiam atrapalhar a ação de Seu Espírito através de mim. E o amor, verdadeira prova de discipulado, e que apaga uma multidão de pecados, será a única coisa determinante das minhas palavras e das minhas atitudes. Amém!

Mário Jorge Lima – 13/Jan/2014
“Livre pensar é só pensar” – Millor Fernandes.

Autor: Mário Jorge Lima
São Paulo, 13/Jan/2014.

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