Postado em: sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal

A propósito do Natal, que se comemora neste Domingo, 25/12, vamos interromper a nossa Série sobre o Fruto do Espírito e vamos conversar um pouquinho hoje sobre esse acontecimento tão importante da religião cristã que é o nascimento de Cristo Jesus - aceito por nós como Filho de Deus – em nosso mundo, como uma criança, assumindo aqui a natureza pecadora do ser humano.

Esse é um assunto inesgotável, que tem maravilhado e intrigado todas as gerações de cristãos ao longo dos séculos. Tem sido tema de milhões, eu diria, bilhões de canções, poemas, livros, sermões, histórias, pinturas, todo tipo de obras de arte, filmes, peças teatrais, estudos e pesquisas, enfim, tem encantado todos os povos e raças, mesmo aqueles que não aceitam o cristianismo com sendo sua religião. E eu diria: tem transformado vidas, tem alterado a cultura e os costumes de pessoas de todas as origens, de todas as classes sociais e econômicas.

É bastante sintomático e significativo, no entanto, que não haja evidências físicas irrefutáveis a respeito desse fato. Não sabemos a data de Seu nascimento ou a data de Sua morte. Não temos evidencias quanto ao local em que Ele de fato nasceu, de casas em que tenha morado ou da Sua sepultura. Não existe nenhuma lasquinha sequer da madeira da cruz em que Ele morreu, ou um dos cravos de Sua coroa de espinhos, nem um prego que tenha traspassado Seus pulsos e pés. Não há retalhos de tecidos de Suas roupas ou calçados que tenha utilizado, ou qualquer artefato doméstico de que tenha feito uso.

Também não sabemos como era Seu rosto, o formato de Seu nariz, se tinha lábios finos ou grossos, qual era a cor exata de Sua pele ou de Seus olhos, qual a Sua altura, se era magro ou gordo, musculoso ou franzino, qual era o tom de Sua voz. Perceberam quanta desinformação básica e elementar a respeito dAquele que consideramos como sendo nosso Mestre, nosso Salvador, nosso Senhor e Rei?

Além disso, Ele não escreveu nenhum livro, nenhuma epístola, nem um Salmo sequer, não compôs nenhuma canção. Nem mesmo fundou uma religião ou estabeleceu organizações formais em torno de Seus ensinamentos. Desde o Seu nascimento não teve berço, quartinho preparado, roupas especiais, não possuiu prata, ouro ou dinheiro, não teve como Seu nem um simples travesseiro onde descansasse a cabeça. Usou casa de amigos para Se hospedar, e para o Seu ministério se valeu de coisas emprestadas, dinheiro de pessoas que O seguiam, locais de reunião, barcos e cavalgaduras para locomoção, também emprestados.

Em vida, Sua própria família O desprezou, não se relacionava com Ele, não entendia Seu ministério. Quando morreu, teve que deixar Sua mãe aos cuidados de um discípulo, foi embalsamado e teve o corpo preparado e envolto com especiarias e lençóis doados. Seu túmulo também foi emprestado. Não deixou bens. Talvez a única coisa realmente Sua tenha sido aquela cruz tosca e pesada que carregou e na qual foi finalmente pregado e pendurado.

Como vimos, uma vida sem nenhum glamour, sem charme, sem nenhuma sofisticação, sem qualquer atrativo, vida sofrida, sem nenhum vestígio de celebridade. Mas, uma vida com um propósito definido, magno e maravilhoso: tirar o pecado do mundo, reconciliando o homem com Deus.

Voltando às evidências de que falei no início, eu mencionei que é significativo que não tenhamos à nossa disposição, em nenhuma igreja do mundo, em nenhum museu ou centro de exposições, qualquer coisa física, tocável, qualquer informação de endereço, qualquer data comprovada, que ateste de forma irrefutável a passagem de Cristo por nosso planeta.

Eu vejo nisso uma providência divina. Houvesse essas evidências físicas, visíveis, tangíveis, comprovadas, da estada de Cristo entre nós, de Seu nascimento, vida, morte e ressurreição, e estaria estabelecido o mais monumental, o mais gigantesco sistema de idolatria, de culto emocional e até irracional, de romarias sem fim, de fanatismo fundamentalista, e, por que não dizer também, de comércio e turismo religioso de que se tem notícia e que se poderia imaginar.

Deus é sábio e desde o início de Seu plano de graça para salvação da humanidade, concedeu o dom da fé como sendo a única atitude a ser tomada pelo ser humano para alcançar a salvação da condenação do pecado e, consequentemente, a vida eterna. Nos dias de Jesus, como Ele mesmo atestou e comentou, muitos, porque viram, creram. No entanto, muito mais bem-aventurados seriam aqueles que, sem ver, apenas pelo testemunho dos que viram e relataram, haveriam de crer nEle.

A religião que devota crença num Deus criador e interessado no ser humano, a ponto de assumir a natureza do mesmo com a intenção de salvá-lo e fazê-lo viver pra sempre, se olhada sem o olhar crédulo da fé, é absurda, irreal, incrível. E o nascimento virginal do filho de Deus, concebido sem relacionamento homem-mulher, é absurdo, irreal, incrível.

Temos que procurar entender nossos irmãos ateístas e agnósticos. Assim como nós, eles estão em busca da coisa verdadeira. Eles se baseiam inteiramente em evidências, em coisas tangíveis, em descobertas e resultados de testes laboratoriais, feitos com análises e instrumentação científicas. É como a ciência existe e trabalha. Na ciência não há fé, só há comprovações, evidências. Quando não há isso, ela não considera verdadeiro e descarta totalmente.

Mas, nas coisas espirituais não acontece assim. Há esse componente difícil de explicar - eu diria, impossível de explicar - que podemos apenas sentir, chamado fé, e que faz toda a diferença, que dá certeza daquilo que não vemos e não tocamos. Sentimos os efeitos da fé em nossa vida, em nosso comportamento, em nossa saúde, em nossos negócios, em nossos relacionamentos, em nossas emoções, e essas são as evidências de que dispomos.

A Bíblia, que pela fé consideramos como sendo a Palavra de Deus, diz coisas do tipo: “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe...” (Heb.11:6), “... porque o justo viverá pela fé.” (Gal.3:11), “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé...” (Efe.2:8).

Vou dizer algo que, para quem não crê é um verdadeiro absurdo, mas para quem crê é tudo que ele precisa: a fé dispensa evidências. Ou não seria fé. Se tivéssemos comprovações de todas as coisas espirituais, de todos os fatos relatados nas Escrituras, não haveria lugar para a fé e nem necessidade de desenvolvê-la em nossa vida. E sem essa atitude do homem, que é crer sem ver, não haveria como conceder-lhe a graça divina.

Saindo um pouquinho do tema da fé, há algo no nascimento de Cristo Jesus que eu acho lindo e maravilhoso. Jesus poderia ter vindo a este mundo como um Ser superior, desenvolvido, adulto, maduro, sábio, totalmente pronto para pregar e realizar Seus milagres e curas. Mas, não o fez, e ao invés disso, nasceu aqui como uma criança, foi amamentado, educado, cresceu e Se desenvolveu, cumpriu o processo completo pelo qual todo ser humano passa desde que o mundo é mundo. E eu muitas vezes me perguntei por quê?

É sabido, entendido e aceito por nós cristãos, que Ele veio aqui com o propósito definido nos céus, em tempos imemoriais, não de ser servido “...mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.”. Ele mesmo disse: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos.” (Joao 15:13). Então, aí está a razão dEle ter nascido como uma criança e não aparecido como um Ser adulto e desenvolvido. Ninguém morre sem ter nascido. Nem mesmo uma planta. Nem mesmo um trabalho, um pensamento, uma ideia. Pra morrer, tem que primeiramente nascer. Foi por isso que Ele veio e nasceu como criança. Simples. Qualquer criança entende isso.

Agora vamos comentar algumas curiosidades interessantes sobre o nascimento de Jesus. São pequenos detalhes, saborosos, que às vezes nos surpreendem quando atentamos para eles. Vejamos.

Com respeito ao coro de anjos que cantava após o anjo que anunciou o nascimento do menino-Deus aos pastores, acostumamo-nos a ouvir dizer que eles cantavam um cântico dizendo coisas do tipo: “Paz na terra aos homens de boa vontade”. Na verdade, pelo relato bíblico, não foi assim. Lemos que o que eles cantavam dizia: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem.” Lucas 2:14.

Nunca houve e não há homens de boa-vontade. Nenhum homem manifesta, naturalmente, boa-vontade para com as coisas de Deus, de modo que o coro de anjos não poderia ter cantado nada semelhante. O que eles cantaram foi que Deus, sim, quer muito bem aos seres humanos, tanto que deu a eles o que tinha de melhor, Seu único Filho.

A Bíblia também não diz que Maria chegou a Belém montada em um jumento ou animal dessa natureza, como costumamos ver em alguns quadros e pinturas, e nem que chegou no mesmo dia ou na mesma noite em que Jesus nasceu. Essa foi outra tradição que se criou. Diz apenas que José subiu com Maria, de Nazaré para Belém, a fim de se alistar no recenseamento. E estando lá - não sabemos havia quantos dias ou semanas - cumpriu-se o tempo em que daria luz e então Jesus nasceu.

Não há descrição bíblica que assegure que Jesus nasceu num ambiente ou local onde se guardavam animais. A Bíblia diz que Ele nasceu – sem dizer onde - e então Maria o envolveu em panos e o deitou numa manjedoura, uma espécie de tabuleiro onde comem vacas e cavalos. E fez isso porque não havia lugar para eles na estalagem, que era uma espécie de hospedaria ou pensão, ou ainda, quarto de hóspedes. Presume-se, por isso, que os pais de Jesus estariam utilizando a estrebaria para dormir, mas, não há essa narrativa.

Aqueles que vieram do Oriente para adorar a Jesus, e que são chamados tradicionalmente e cantados em prosa, verso e música de Os Três Reis Magos, na verdade não eram reis e nem eram três. Muito provavelmente ficou essa tradição em função dos presentes que eles levaram, que esses, sim, eram de três tipos: ouro, incenso e mirra. E, possivelmente foi isso que originou a troca de presentes que existe até hoje nessa época de Natal. Eles eram sábios estudiosos das profecias, talvez até sacerdotes vindos de alguma região da Pérsia ou de Babilônia. A tradição chegou a lhes dar nomes, Belchior, Baltasar e Gaspar, dizendo inclusive que um deles era negro. Mas, o que a Bíblia diz em Mateus 2:1 é que vieram “uns magos do Oriente a Jerusalém” em busca do menino. Portanto, nem reis e nem três. Aliás, deveriam ser bem mais de três, com comitivas numerosas, pois causaram comoção na cidade, até mesmo Herodes soube deles e quis recebe-los.

Além disso, quando esses magos vieram, muito provavelmente Jesus já tinha em torno de dois anos, pois foi essa a idade que Herodes calculou, depois que eles passaram por Jerusalém, e foi essa a idade limite decretada por ele para que fossem mortas todas as crianças do gênero masculino. E Maria e José, nessa época já moravam numa casa, pelo que diz a Bíblia em Mateus 2:11, e não mais na estalagem: “Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra.”. Muitas vezes essa cena foi retratada como tendo se passado numa estrebaria, mas, certamente, não foi.

E, por fim, a questão da data. Embora não seja impossível, parece improvável que Cristo tenha nascido no mês de Dezembro. A Bíblia não especifica nem dia nem mês. Um problema para que tenha sido Dezembro é que seria fora do comum e bastante difícil que pastores estivessem “pastoreando nos campos” nesse frio período do ano, quando os campos ficavam improdutivos. A prática normal era manter os rebanhos nos campos da Primavera ao Outono. Além disso, o inverno seria um tempo especialmente difícil para Maria viajar grávida pelo longo caminho de Nazaré a Belém (70 milhas). O período mais provável, portanto, seria em fins de Setembro, no tempo da Festa dos Tabernáculos, quando uma viagem como essa era comumente feita.

Sendo assim, a data de 25 de Dezembro foi simplesmente estabelecida pela igreja cristã no quarto século. A comemoração do Natal de Jesus surgiu de um decreto. O Papa Júlio I decretou em 350 que o nascimento de Cristo deveria ser comemorado no dia 25 de Dezembro, substituindo a veneração ao Deus Sol pela adoração ao Salvador Jesus Cristo.

Sabedores disso, e conhecedores da história que o Natal representa, a nós cristãos essa época deve evocar sentimentos bem diferentes daqueles que o mundo de certa forma abraça, longe do comércio gigantesco e sem freios, longe dos enfeites, dos presentes, das comidas e bebidas e da euforia generalizada. Devemos ter em mente que o Natal, mesmo em data errada e comemorado de forma inadequada, fala de um amor sem igual, do Criador pela criatura, do Divino pelo humano, a ponto de morrer para quitar uma dívida impagável.

Eu gosto muito de pensar na encarnação de Cristo Jesus, Deus feito homem, pela analogia de peixinhos num aquário. Um homem tem um aquário cheio de peixes. Trata-os com o maior carinho, dá-lhes diariamente comida, troca sua água, limpa a sujeira, enfim, faz tudo que os peixes precisam para viver. Mas sempre que ele se aproxima do aquário, ou tenta colocar a mão ou dedos na água, os peixinhos se assustam, fogem, debatem-se apavorados. Jamais se acostumarão com a presença ou contato físico do homem.

A única maneira disso ser possível, seria o homem transformar-se em peixe, como eles, e entrar no aquário. E foi o que Jesus fez, assumindo a natureza do ser humano, para sempre, e vindo morar entre os homens, para sentir na pele as suas necessidades, as suas mazelas, as suas dores, a sua angústia, e poder assim ser seu necessário e suficiente Salvador.

Desejo a vocês um Feliz Natal, cercados de festa e alegria, mas conscientes de que essa festa é agridoce, tem componentes de tristeza e de alegria, tem as dores de um parto divino, daqueles bem difíceis, mas tem também a felicidade do nascimento de uma criança dada como dom de Deus ao mundo, para salvá-lo e lhe conceder vida eterna.
Autor: Mário Jorge Lima

0 comentários:

Postar um comentário

Esse Blog não se prestará a polêmicas doutrinárias, é apenas devocional. Você não precisa concordar comigo e pode dar sua opinião livremente, se não for agressiva nem fugir aos princípios de convivência cristã, será publicada.