Postado em: sexta-feira, 7 de outubro de 2011

3(10) - O Fruto do Espírito: Alegria

Eis aqui um gomo que no meu fruto do Espírito tem uma certa dificuldade para se desenvolver. Não que eu seja uma pessoa triste, não sou, posso até parecer um pouco fechado, mas, aqueles que convivem comigo sabem que sou uma pessoa bem humorada e feliz. No entanto, dentro daqueles quatro conhecidos perfis psicológicos com que a moderna psicologia trabalha, eu reconheço que sou melancólico. Minhas músicas, letras, poemas mostram isso claramente. Por isso, admiro profundamente aquelas pessoas alegres, risonhas, pessoas que parecem iluminar o ambiente em que chegam.

Quando eu li que a alegria faz parte do fruto do Espírito, ou seja, por estar com Jesus, por crer nEle e amá-Lo, tenho que apresentar também a alegria como resultado desse relacionamento, confesso que fiquei um pouco preocupado.

No mundo de hoje, hostil, violento, injusto, é muito difícil ser naturalmente alegre. Nesse mundo onde a tristeza, a melancolia, a depressão, a angústia profunda, o pranto e a dor fazem parte da realidade da vida de uma grande parcela da humanidade, manifestar alegria genuína, ser naturalmente descontraído e demonstrar real felicidade parece ser cada dia mais difícil. Essa é uma das razões porque as drogas, a bebida e outros artifícios de fuga são tão procurados por quem vive triste e infeliz. Mas a alegria, fruto do Espírito é de outra natureza.

Esse é o segundo gomo do fruto do Espírito, vindo logo depois do amor. Sim, essa alegria deve ser um elemento sempre presente na vida de todo aquele que foi salvo pela graça de Cristo Jesus. A alegria, nesse nosso contexto, não é uma virtude que consigamos produzir de forma espontânea, ela é uma manifestação do Espírito Santo em nossa vida.

Vamos ler algumas citações bíblicas a respeito da alegria, inicialmente o que disse Davi no livro dos Salmos 16:11:

“Na presença de Deus existe abundância de alegria, em sua destra existem delícias perpetuamente.”.

Que linda essa constatação de Davi. A alegria, no contexto espiritual, é algo bem diferente de euforia, algazarra, gritaria, como se a vida fosse uma festa constante. A alegria cristã tem outras motivações e outras maneiras de se manifestar, o que não impede, de forma alguma, o riso, a brincadeira, o lazer, o divertimento saudável. Mas, permitam-me dizer-lhes que a vida não é uma festa, no sentido de viver despreocupada e irresponsavelmente.

Paulo disse assim, em Romanos 14:17:

“Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.”.

A alegria é algo que tem sua origem em Deus, sem a menor sombra de dúvida. Ao considerar, no final de cada dia da criação, que tudo que Ele estava fazendo era bom ou muito bom, podemos entender que o ato de criar é algo que Deus fez e faz com imensa alegria, com grande satisfação. A Bíblia diz a respeito de Deus:

“Majestade e esplendor há diante dele, força e alegria, no seu lugar.” I Crônicas 16:27, ARC.

Deus sentiu alegria por ocasião do batismo de Cristo Jesus, dizendo audivelmente ser Ele Seu Filho único da espécie, em quem Ele se comprazia, ou se alegrava. É dito também na Bíblia que há muita alegria no céu a cada vez que um pecador se arrepende (Lucas 15:7).

Portanto, como seres criados à imagem e semelhança de Deus, devemos ser alegres, pois não há qualquer contradição entre alegria e santidade, comunhão ou relacionamento com Deus. Nossos cultos deviam ser mais alegres, descontraídos. Não precisamos partir para a algazarra e o ruído incômodo para demonstrar nossa alegria ao cultuar a Deus, mas não precisamos, mesmo em cerimônias solenes como a Ceia do Senhor, manter um ar de tristeza ou melancolia.

Davi no Salmo 43:3-5 disse assim:

“Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu santo monte e aos teus tabernáculos. Então, irei ao altar de Deus, do Deus que é a minha grande alegria, e com harpa te louvarei, ó Deus meu. Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei. Ele é a salvação da minha face e Deus meu.”.

A alegria segundo o Espírito Santo é a alegria da graça, é a alegria que permite inclusive que a pessoa possa sentir-se bem, sentir-se tranquila em meio a uma dura provação, ou seja, é um contentamento que não depende das circunstâncias. Isso pode parecer estranho, mas é possível. Vejam o que nos diz II Coríntios 8:2:

“Irmãos, queremos que vocês saibam o que a graça de Deus tem feito nas igrejas da província da Macedônia. Porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria...”.

Outro detalhe muito interessante que encontramos nos escritos de Paulo: quando fala dos dons do Espírito, lá em Romanos 12, ele associa o exercício do dom do amor [misericórdia] com a alegria. Lemos no versículo 8:

“... o que exorta faça-o com dedicação; o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce misericórdia, com alegria.”.

Ainda nesse contexto de amor, de misericórdia, quando doamos qualquer coisa para Deus ou para os pequeninos de Deus, devemos fazê-lo com intensa alegria. II Coríntios 9:7 nos diz:

“Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria.”.

Vejam, portanto, que a alegria deve permear a vida do cristão, em vários sentidos, em vários aspectos, em todas as situações.

Agora uma questão interessante: e Cristo Jesus? Será que Ele era uma pessoa alegre, risonha? Ou era sisudo, semblante sempre triste e fechado? A rigor, não temos quase nenhuma informação bíblica sobre isso e muito já se especulou a respeito.

Por um lado a Bíblia pinta a respeito dEle um quadro terrível, e O apresenta como sendo o Servo sofredor de Isaias 53. Nesse e em outros textos encontramos um Cristo tido como raiz de uma terra seca, sem qualquer beleza ou atrativos, desprezado, rejeitado, homem de dores, traspassado pelas nossas transgressões, moído pelas nossas iniquidades, enfermo, aflito, ferido de Deus e oprimido. Foi levado ao matadouro como uma ovelha muda, e foi feito pecado em nosso lugar, foi ferido e cortado da terra dos viventes, suou sangue e morreu morte de cruz.
Ufa! Não há descrições mais arrasadoras e devastadoras do que essas. Por tudo isso, quem, em sã consciência, poderia viver sorrindo, com tal carga de sofrimento sobre Si? Por tudo isso, muitos o viram chorar algumas vezes.

Mas, por outro lado, sabemos que Jesus frequentava festas, almoçava nas casas de Seus amigos, comia e bebia com os que vinham a Ele, não se furtava a ter uma vida social, e vivia cercado de crianças e sendo assediado e tietado por elas. As mães dessas crianças também as traziam para serem abençoadas por Ele, exatamente porque deviam sentir nEle um espírito excelente. Chamava a Si os cansados e oprimidos, prometendo-lhes alivio por ser manso e humilde de coração. Passava assim a ideia de uma religião alegre, comunicativa, inclusiva, amorosa e feliz.

Um dos textos mais tocantes e belos da Bíblia é o que dá início à epístola de Hebreus. O autor dessa epístola, no capítulo 1, falando a respeito de Cristo Jesus, no verso 9 que destacamos, nos dá uma boa pista sobre como era o Salvador no dia a dia:

“Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria como a nenhum dos teus companheiros.”.

Pronto, aqui está uma prova inspirada de que Cristo Jesus tinha, sim, uma grande alegria a envolver as Suas ações e inerente ao Seu ser. Por esse texto já podemos crer, sem nenhuma dúvida que Cristo era uma pessoa alegre e jovial, aliás, de acordo com o texto, como nenhum outro dos que O cercavam.

De toda forma, mesmo fazendo essas inferências acima, parece não haver uma indicação clara na Bíblia, de momentos de alegria explícita de Cristo Jesus ou de que Ele estivesse sorrindo ou deliciando-se com alguma situação vivida com Seus discípulos. Mesmo se considerarmos que em algumas parábolas - como a do filho pródigo ou a da ovelha perdida - há uma alegria implícita no Pai que reencontra o Seu filho que estava perdido e foi achado e comanda uma festa em comemoração, ou do Bom Pastor que recupera e restaura a Sua ovelha machucada e aflita, ainda assim falta um episódio explícito de alegria de Cristo Jesus.

Mas, quero dizer a vocês, para nossa alegria pessoal, que depois de muito procurar eu encontrei. Um único e precioso momento de alegria clara e límpida do Salvador, descrito nos Evangelhos. O que mostra que Jesus tinha, sim, esse gomo do fruto do Espírito em Sua vida.

Ele tinha enviado os 70 naquela missão primeira de anunciar o Evangelho do Reino. O trabalho deles era preparatório, iriam às cidades que Cristo em seguida haveria de visitar. Foi uma dura missão. Foram enviados como ovelhas para o meio de lobos, sem levar nenhuma provisão, com tempo apertado. Levariam apenas a Palavra da Verdade, deveriam curar enfermos, expulsar demônios, receberam poder para pisar serpentes, escorpiões, vencer toda a força do diabo.

Agora eles estavam voltando, exultantes, explodindo de santo contentamento, pois viveram na prática o poder de Deus vencendo as hostes de Satanás através do serviço que prestaram. Vou ler apenas os textos que relatam a reação de Cristo quando eles retornaram contando todas as maravilhas que vivenciaram e como cumpriram a missão que Jesus lhes dera. Está em Lucas 10:17-21:

“Voltaram depois os setenta com alegria, dizendo: Senhor, em teu nome, até os demônios se nos submetem. Respondeu-lhes ele: Eu via Satanás, como raio, cair do céu. Eis que vos dei autoridade para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e nada vos fará dano algum. ... Naquela mesma hora alegrou-se Jesus no Espírito Santo, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra...”

Vejam que maravilha esse relato. A ação dos discípulos pregando o Evangelho do Reino da Graça foi tão poderosa que Jesus viu, como resultado disso, Satanás como que caindo dos lugares celestiais. Muitos pensam que isso tem a ver com a guerra que houve no céu em tempos imemoriais, quando Lúcifer foi expulso, mas não tem nada a ver com aquilo. Essa visão que Cristo teve foi tão somente resultado da expansão do seu Reino pelo trabalho missionário dos 70 discípulos.

E em seguida, Ele exultou, e diz a Bíblia, “alegrou-se no Espirito Santo” e rendeu muitas graças a Deus o Pai pelo resultado daquele trabalho.

Minha mensagem final: o único relato bíblico que existe a respeito de uma ocasião em que Jesus efetiva e explicitamente se alegrou muito, tem a ver com a pregação do Evangelho, tem a ver com a instalação de Seu Reino.

Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria... Que Deus faça com que, apesar do estranho e degenerado mundo em que vivemos, e circundados pelo mal em todas as suas formas, possamos desenvolver esse gomo tão desejado do fruto do Espírito, a alegria, pura, santa, focada na pregação do Evangelho e na expansão do Reino de Deus.

Autor: Mário Jorge Lima

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