Postado em: sexta-feira, 28 de outubro de 2011

5(10) - O Fruto do Espírito: Paciência

Chegamos a um gomo do fruto do Espírito muito importante e necessário nos dias de hoje. Na maioria das traduções da Bíblia esse gomo é chamado de longanimidade. Aqui nós vamos chamá-lo de paciência, como está em algumas versões, ou em alguns casos, de tolerância.

Vivemos em tempos irados, tempos de muita inquietação e ansiedade, muita pressa, onde tudo é urgente e pra ontem, tempos onde tudo que falta é justamente o tempo. Nossa impaciência diante das diversas situações da vida pelas quais passamos, nossa intranquilidade e irritação, mostram muito do nosso interior, como vai a nossa alma e, eu diria, a quantas anda a nossa relação com Deus.

Vejam que esse gomo vem logo depois do gomo da paz, pois eles têm total relação entre si. É muito difícil que alguém exageradamente impaciente desfrute de paz interior, ou que alguém que não tenha paz possa ser paciente. Há pessoas que parecem viver sempre no limite de sua tolerância. É aquele pessoal da tolerância zero, do pavio curto, que não leva desaforo pra casa, com estresse permanente. As razões básicas para que isso aconteça nós poderíamos classificar da seguinte forma:

. Nossas características pessoais (alguns são impacientes por natureza);

. Um certo cansaço em relação à vida agitada e muitas vezes frustrante que levamos;

. Ou ainda uma dificuldade grande para nos relacionarmos com os outros e para aceitá-los como eles são.

Eu anotei aqui algumas situações muito corriqueiras, que fazem parte do nosso dia a dia, e que nos levam a ser impacientes, intolerantes e ansiosos:

. Ingratidão por parte de pessoas a quem muitas vezes ajudamos e de quem gostamos.

. Insistência das pessoas em nos fazer coisas que elas sabem que nos desagradam.

. Conexões na Internet que nos irritam por sua lentidão e quedas, além da enorme carga de Spam e-mails e Viruses que atulham nossas correspondências eletrônicas.

. A falha de computadores, impressoras, celulares, máquinas de todo tipo, nas horas em que mais precisamos desses equipamentos.

. A perda de horário para levantar ou para sair para um compromisso importante ou uma viagem.

. O trânsito louco das grandes cidades, os engarrafamentos quilométricos e o barulho intermitente das motos que nos cortam a toda velocidade.

. A estupidez de enfrentar filas no banco, no mercado, no ponto do ônibus, nos consultórios, em todo lugar.

. A impontualidade de nosso cônjuge ou nossos filhos, sempre vivendo nos limites dos horários.

. A falta de humildade, a ingratidão e a grosseria de amigos, irmãos, parentes, vizinhos e colegas de trabalho.

. O ronco do nosso companheiro (a).

. Termos que andar atrás de uma pessoa que anda bem devagar, enquanto estamos com toda a pressa do mundo.

. Comprarmos qualquer mercadoria e sentirmos que fomos enganados, que não funciona e não resolveu o nosso problema.

. Pagarmos por um serviço e ele não ser executado de forma satisfatória.

. Pedirmos ajuda a um atendente que nunca sabe nada, a não ser dizer naquela famosa forma de gerúndio no presente: "um momento, que eu vou estar transferindo a sua ligação".

. Gritaria de criança fora de hora, assim como latido de cachorro. Justamente você que ama tanto crianças birrentas e ama cachorros raivosos. Principalmente quando não são as suas crianças e não é o seu cachorro.

. Isso sem contar aquelas situações em que você se acha insatisfeito com você mesmo, com suas atitudes ou falta de atitude, com sua mediocridade, com a sua falta de ousadia e coragem, com sua falta de grana pra conseguir as coisas que você precisa ou que acha que merece ter, com seu casamento, com seu emprego, com seu desempenho pessoal.

São muitas as situações que nos causam verdadeiro estresse e, então, somos tentados a sair “detonando” tudo e todos à nossa volta. Vou confessar uma coisa a vocês. Eu sempre achei que Deus me fez pequeno e fraco porque se eu fosse grande e forte acho que iria causar muito estrago à minha volta. Eu sempre busquei ser mais consistente e forte nas minhas argumentações e reflexões, pra compensar a minha fraqueza física. Deus é muito sábio. Há um ditado popular que diz: “Deus não dá asas à cobra”. Vocês já imaginaram uma cobra que voasse como um pássaro, que estragos causaria, que predador insuperável seria, um animal peçonhento assim e ainda por cima alado!

A Bíblia diz que Deus é longânimo, paciente, misericordioso, e tardio em irar-se. Vejam alguns versículos lindos a respeito dessa característica do nosso Deus:

“SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade.” Êxodo 34:6.

“O SENHOR é longânimo e grande em misericórdia, que perdoa a iniqüidade e a transgressão...” Números 14:18.

“Misericordioso e piedoso é o SENHOR; longânimo e grande em benignidade.” Salmos 103:8.

“Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” II Pedro 3:9.

Com certeza nosso Deus deseja imprimir e desenvolver em nós essa característica tão necessária em nossos dias tumultuados e tensos. Nós aprendemos nos Provérbios bíblicos que “o longânimo é grande em entendimento, mas o de ânimo precipitado exalta a loucura.” Provérbios 14.29. Aprendemos também que a glória de uma pessoa é ser longânimo e perdoar as injúrias. Provérbios 19.11. O sábio também diz que “Melhor é o longânimo do que o herói da guerra, e o que domina o seu espírito, do que o que toma uma cidade.” Provérbios 16.32. Portanto, naquelas horas em que o sangue ameaçar ferver, lembremo-nos também que “a pessoa raivosa suscita contendas, mas o longânimo apazigua a luta.” Provérbios 15.18.

Na verdade, é muito fácil falar e teorizar, sentadinho aqui, num ambiente amistoso, cercado de pessoas cristãs que estão fazendo um trabalho que amam fazer, já desfrutando as delícias de um final de semana. Mas na roda vida da nossa vida diária, nas situações como aquelas que eu citei acima, não é fácil ser paciente, tolerante, benigno, amável e solícito. Mas, também não é algo inalcançável. Deus não esperaria de nós algo impossível de ser atingido. Quem busca imitar a Deus busca, entre outras coisas, ser longânimo, ser paciente. Não por suas próprias forças e virtude, evidentemente, mas pelo poder do Espírito de Deus.

Sendo assim, queremos que sejam pacientes e tolerantes conosco? Sejamos com nosso próximo também. Um belo texto de Paulo diz assim: “Exortamo-vos, também, irmãos, a que admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimos para com todos.” I Tessalonicenses 5:14.

Você sabia que nós só fomos salvos porque Deus é longânimo? A pergunta do apóstolo Paulo nos recorda precisamente a razão por que fomos alcançados por Deus, veja: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, tolerância e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” Romanos 2.4. E como ensina Pedro, foi a “longanimidade do nosso Senhor” que nos salvou. II Pedro 3.15.

Agora fica aqui uma pergunta final e instigante pra vocês pensarem: será que ser pacífico (ter o fruto da paz) e ser longânimo (ter o fruto da paciência) significa que o cristão tem que ser apático, indiferente, mortinho? Será que temos que perder a nossa capacidade de nos indignarmos, de nos posicionarmos contra a injustiça, contra o erro, contra a hipocrisia, contra o atraso?

“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento...” grita o apóstolo Paulo em Romanos 12:2. Atitude altamente revolucionária. As expressões fortes aqui são: não se conformar, transformar-se, renovar a mente.

O cristão é um inconformado por natureza. O cristão deveria andar em revolta contra o sistema pecaminoso que impera no mundo. O cristão tem que ser indignado. Por isso, de algum modo, ele sempre estará em conflito com a sociedade. Quando um grupo cristão se conforma com os valores sociais do seu tempo, algo talvez esteja errado. Uma dose de conflito sempre é necessária. Não conflito físico, mas conflito moral e espiritual. As igrejas que estão muito afinadas com a sociedade e suas misérias e injustiças talvez estejam mal diante de Deus, porque o Senhor não aprova os padrões deste mundo. Não se conformar é não tomar a forma, o modelo do mudo. Deus nos criou à Sua imagem e semelhança, por que iríamos nós, agora, adotar uma forma diferente?

A segunda expressão forte é “transformai-vos”. Comece a mudar o mundo mudando você mesmo, mas pelo poder que há na Palavra de Deus, o poder do Espírito Santo. Transformar a si mesmo já é uma tarefa grandiosa e revolucionária!

A terceira expressão é “renovação da mente”. Pelo que a própria psicologia prega, você é o que você pensa. Se pensamos nas coisas espirituais, nas coisas de Deus, estamos caminhando para voltar a ter a imagem dEle refletida em nós.

Dizem que temos que “chamar o pecado pelo nome” e não tolerar os erros, as transgressões à vontade de Deus. Então comecemos a chamar pelo nome o nosso próprio pecado. Comecemos a combater as nossas próprias transgressões, a nossa própria hipocrisia. Se cada um fizer isso, seremos todos mais pacientes, longânimos, compreensivos com os outros e viveremos em paz.

Ser longânimo, ser paciente, ser compreensivo, ser tolerante, é uma maneira de nos parecermos com o nosso Deus. Brenan Manning, pensador católico e um dos grandes escritores cristãos do nosso tempo, construiu esse admirável e profundo parágrafo que eu deixo aqui para finalizar nossa conversa de hoje:

“O modo como somos uns com os outros é o teste mais verdadeiro de nossa fé. Como trato um irmão ou irmã no dia-a-dia, como reajo ao bêbado importuno marcado pelo pecado na rua, como respondo a interrupções de pessoas de quem não gosto, como lido com gente normal em sua confusão normal num dia normal, pode ser melhor indicação da minha reverência pela vida do que um adesivo contra o aborto preso ao pára-choque do meu carro.”

Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência...

Autor: Mário Jorge Lima

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