Postado em: sexta-feira, 21 de outubro de 2011

4(10) - O Fruto do Espírito: Paz

Na sequência da nossa presente série, vem o terceiro gomo do maravilhoso fruto do Espírito de Deus em nós, que é a paz. Esse é um doce e precioso gomo, um anseio natural que existe no coração de todo ser humano: viver em paz. Em um mundo envolto em guerras, conflitos de todo tipo, violência, crime, ferocidade, ditadores e ditaduras, injustiça e corrupção em todos os níveis, o mínimo que se pode desejar é ter paz na vida.

Por outro lado, também as condições financeiras, econômicas e sociais do mundo, as doenças de todo tipo, em especial as emocionais, as assim chamadas, doenças psicossomáticas, que trazem comportamentos de difícil tratamento e convivência, como a depressão, a síndrome do pânico, a esquizofrenia, a baixa auto-estima, a frustração, o complexo de culpa, os bloqueios, as fobias de todo tipo, a angústia, e tantas outras, nos tiram a paz, a tranquilidade, a serenidade e até mesmo a vontade de viver.

Quando o nascimento do Salvador foi anunciado ao mundo, um dos desejos mais ternos expressos por Deus para o ser humano, e que se personificava naquele divino bebê, dizia assim, nas vozes do coro de anjos: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem.” Lucas 2:14.

Desde os tempos bíblicos do Velho Testamento os homens de bem se cumprimentava dessa forma: “Paz seja convosco.” Gênesis 43:23. Os anjos de Deus usavam essa mesma expressão: “Paz seja contigo.” Juízes 6.23. A bênção sacerdotal, chamada de bênção aarônica, terminava assim “O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz.” Números 6.26. Jesus Cristo, o Príncipe da Paz, também saudava seus discípulos e amigos dessa mesma maneira: “Paz seja convosco.” Lucas 24.36. Chegou mesmo a recomendar que quando entrassem na residência de alguém, dissessem: “Paz seja nesta casa.” Lucas 10:5. Os apóstolos pediam que o “Deus da paz” estivesse com todos, Romanos 15.33. E uma das saudações na igreja do Novo Testamento era “graça e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.” I Coríntios 1.3.

Por esses poucos exemplos vemos que a paz sempre foi uma condição de vida desejada, procurada, prometida ao longo de toda a Bíblia. Pesquisando, poderemos encontrar essa palavra mencionada em pelo menos três centenas de versículos.

Às vezes pensamos na paz apenas como a situação oposta à da guerra, ou seja, a paz é a ausência de guerra. No entanto, a paz para o cristão tem também outra conotação, que lhe permite inclusive desfrutar paz mesmo em meio a conflitos e confrontos de qualquer natureza.

A paz para o cristão é estar reconciliado com Deus. É ter sido justificado e perdoado de todos os seus pecados passados e ser nova criatura em Cristo Jesus. É viver dentro de uma nova ética, relacionando-se intensamente com Deus através da oração, do estudo da Bíblia e do serviço de amor ao próximo.

Por Seu lado, Deus deseja dar-nos paz, completamente diferente da paz que o mundo dá. Esta é a Sua promessa: “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais.” Jeremias 29.11. “O Senhor dá força ao seu povo, o Senhor abençoa com paz ao seu povo.” Salmos 29.11.

E lá no início da Eternidade, o Reino de Deus, onde todos, pela graça, esperamos estar um dia, segundo diz o apóstolo Paulo, “... não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.” Romanos 14:17. Vejam que a paz é um valor eterno, começa a nos envolver desde nossos primeiros passos na vida cristã, quando nos convertemos e somos justificados, e nos acompanha por toda a eternidade.

A paz que nos vem como fruto do Espírito não depende de uma situação favorável em redor, não depende de ausência de conflitos, não depende da vontade daqueles que nos cercam, não depende das circunstâncias. A paz que vem de Deus, como diz a Bíblia, “excede todo o entendimento.” Filipenses 4:7. Ela é muito mais do que SHALOM - que significa bem-estar - ela é um estado de alma. Ela vem da certeza de que tudo vai bem no relacionamento entre o crente e seu Deus.

O mundo vive em guerra. No mundo há falta de paz. Os países do mundo vivem se confrontando , a probabilidade do início de uma guerra está sempre na próxima decisão de governo. As empresas, as famílias, todos os segmentos da vida humana e da sociedade estão envoltos em conflitos ou possibilidades iminentes de conflitos. As igrejas vivem em guerra, cada uma querendo mostrar-se ao mundo como verdadeira ou ostentar o maior número de adeptos ou o crescimento mais acelerado.

E por que isso acontece? Qual a razão de tanta inquietação, de tantos desencontros, de tanta agressividade e ferocidade, tanta competição irrazoável? Por que não há paz na terra e boa vontade entre os homens? A Bíblia mostra a razão: é porque não damos ouvidos aos comandos de Deus e não nos envolvemos no seu projeto para o mundo. Isaías descreve esse anseio de Deus: “Ah! Se tivesses dado ouvidos aos meus mandamentos! Então, seria a tua paz como um rio, e a tua justiça, como as ondas do mar.” Isaías 48.18.

A paz, como já disse ainda há pouco, é uma benção de Deus, que coroa o processo de justificação. Quando o homem se encontra afastado de Deus, desligado das coisas do Espírito, vive em meio aos seus próprios interesses, uma vida cheia de conflitos, numa guerra íntima contra Deus, contra o mundo, contra si mesmo. O Evangelho então chega à vida desse homem, trazendo-lhe as boas novas da salvação inteiramente pela graça de Cristo Jesus. Esse homem, abrindo o coração a Deus, crê nessa palavra divina, estendendo para ela o braço da fé. O apóstolo Paulo descreve resumidamente esse processo assim: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.” Romanos 5.1.

Em outras palavras, quando o homem aceita o evangelho e crê nAquele que o justifica, reaproxima-se de Deus, refaz a amizade e o relacionamento, não tem mais nenhum litígio com o Criador e passa então a desfrutar de verdadeira paz interior. É essa paz que é inexplicável, é essa paz que é diferente da que o mundo dá, é essa paz que ultrapassa tudo que possamos compreender.

Na vida religiosa, na vida espiritual, há alguns fatores que também contribuem para a nossas falta de paz. Eu citaria aqui alguns que julgo estar entre os principais: a falta de entendimento das coisas de Deus, o espírito de crítica ácida e ferina, indisposição para perdoar e sentir-se perdoado, o legalismo e a incerteza da salvação. Há muitos outros fatores que prejudicam a nossa vida espiritual, mas eu penso que esses citados estão entre os mais comuns em nossas comunidades religiosas, de qualquer coloração, de qualquer denominação.

Já quase ao final dessa nossa conversa de hoje sobre a paz, eu queria ainda fazer um comentário. Sentir paz não é apatia, paz não é ser indiferente a tudo e a todos. Pelo contrário, quem se deixa conduzir pelo Espírito Santo jamais é indiferente. Quem se deixa conduzir pelo Espírito Santo não pode ficar na maior calma vendo o sofrimento de alguém sem se importar. Isso é religião prática, que, quero deixar bem claro, não nos salva de modo nenhum, mas mostra para Quem nós vivemos, em Quem nos movemos e em Quem existimos. Aquele que se deixa conduzir pelo Espírito Santo vai arrumar uma maneira de arregaçar as mangas e fazer alguma coisa, vai trabalhar, semear a paz no trabalho, no seu dia-a-dia. A paz é uma experiência que nos leva a uma grande transformação. E essa transformação, vem nos mostrar um jeito diferente e atuante de enxergar a vida.

Francisco de Assis nasceu no século XII na cidade de Assis , na Itália. Ele é considerado pelos nossos irmãos católicos como o mais querido de seus santos, e goza de uma boa consideração também por parte de protestantes e de adeptos outras filosofias. Ele teve uma infância cheia de travessuras normais em uma criança, até os 20 anos ajudava e era o orgulho do seu pai nos negócios. Decidiu ir à guerra em nome de sua cidade. Foi preso e depois de um ano foi resgatado por seu pai por motivo de doença, juntamente com alguns outros que participaram na guerra. Foi nesta época que teve seus primeiros contatos com o evangelho.

Francisco descobriu sua vocação aos 24 anos de idade. A partir de então, abandonou tudo e todos, e saiu em busca de sua paz, ajudando doentes, confortando miseráveis e leprosos, amando todos como irmãos. Foi chamado de louco, pois deu tudo o que tinha aos pobres, porém renunciou a todos os bens terrenos, e, sendo assim, ele tratou de desprezar a própria vida mundana para encontrar com a pobreza a felicidade que tanto almejava. Tornou-se uma pessoa muito humilde, que também passou por muitas provações.

A relação de Francisco com o seu tempo, foi bastante ligada com a estrutura social e com os problemas que seus contemporâneos enfrentavam, e revelam um Francisco pensando as questões postas por seu tempo; a verdadeira inovação de Francisco foi se unir aos pobres, se tornando ele próprio um pobre.

Sua bela oração, conhecida em todo o mundo, expressava seu desejo maior: “Senhor, fazei de mim um instrumento de Vossa paz.” Que essa seja também a nossa oração, que a paz que desenvolvemos como fruto do Espírito de Deus, nos tranquilize e acalme na provação, mas também transborde na nossa vida, não nos deixe estáticos, sem atitude, sem ação, anestesiados, mas nos faça participantes do sofrimento daqueles que nos cercam.

Temos recebido muitos pedidos diários de oração, são parentes, vizinhos, amigos, irmãos de fé, que nos procuram buscando força em suas aflições, e sabemos o quanto as pessoas sofrem em volta. Aquilo que passamos, se olharmos bem e com olhar de sincera autocrítica, é pequeno perto do que muitas outras pessoas sofrem. Usemos nossa vocação evangélica e cristã, como varas ligadas à Videira verdadeira, para deixar crescer o verdadeiro fruto do Espírito, produzido pelo Príncipe da Paz.

Autor: Mário Jorge Lima

0 comentários:

Postar um comentário

Esse Blog não se prestará a polêmicas doutrinárias, é apenas devocional. Você não precisa concordar comigo e pode dar sua opinião livremente, se não for agressiva nem fugir aos princípios de convivência cristã, será publicada.