Postado em: sexta-feira, 19 de agosto de 2011

1(1) - Eles Voltarão

Esse, na minha opinião, é o tema mais importante de todos os que eu já tratei ou virei a tratar aqui.

Minha reflexão dessa noite começou a ser urdida, ou seja, planejada e pensada, no último domingo, Dia dos Pais. Eu estava matutando - usando um termo bem antigo - sobre o que poderia conversar com vocês quando li no Facebook um pedido de oração feito por um dos web-ouvintes da Rádio Moema. Ele pedia por seu filho, já rapaz de 18 anos, que, havendo sido criado nos caminhos de Deus, nesse momento parece estar bem longe das coisas do Espírito, tendo inclusive enveredado pelo perigoso caminho do vício do fumo. Deu pra sentir o quanto ele estava com seu coração de pai oprimido e angustiado.

Em seguida outro amigo nosso, também do grupo da Rádio Moema, postou um pedido em favor de seu filhinho, de apenas nove anos, que também está rebelando-se contra as coisas de Deus. Eu disse nove anos. Isso me deixou consternado. E tenho certeza de que há centenas, milhares, milhões de pais e mães ao redor do mundo, que choram, sofrem, se desesperam com a situação espiritual, social, emocional de seus filhos. Quantos jovens, alguns recém-saídos da puberdade e da adolescência, estão por aí, pelas baladas e quebradas da vida, se drogando, se prostituindo, se embriagando, praticando todo tipo de atos ilícitos, contravenções, e até mesmo crimes bárbaros.

Muitos desses jovens tiveram e têm lares, muito desses lares com sólidas raízes tradicionais, religiosas, socialmente bem posicionadas. Já outros vêm daquele estrato mais empobrecido e miserável da sociedade, vêm de uma existência penosa, lares completamente desestruturados, isso quando esses lares existem. E essas duas extremidades do espectro social se nivelam, se igualam pela desgraça da solidão, do abandono, do desalento, da falta de horizonte e de esperança.

Satanás é um anjo covarde. Não mexe com ninguém do tamanho dele, ou maior que ele. Quando fez isso, perdeu. E essa é a sua grande frustração, principalmente porque sabe que pouco tempo lhe resta. Então ele ataca em todos os níveis, atira para todos os lados. E as crianças, nossos filhos e filhas, juvenis, pré-adolescentes, adolescentes, jovens e mesmo adultos, são seu alvo preferido. Ele já não perde tempo com velhos e idosos, a esses ele só quer fazer sofrer e que morram o mais rapidamente possível, e com as piores doenças possíveis.

Mas aos nossos filhos, as crianças e jovens do mundo, ele reserva a sua artilharia mais pesada. Envolve-os inicialmente com encantos e depois com o desencanto, com sofrimento, oferece-lhes tudo que pode chamar-lhes a atenção, gastar-lhes o tempo e destruir-lhes a saúde, física, mental, emocional e espiritual. E usa para isso um arsenal variado e de grande porte. Drogas, o mau sexo praticado sem amor e com perversões e desvios, a pornografia e a libertinagem, a comida que não presta, a bebida ruim que entorpece e tira do sério e do real, as diversões e o lazer inadequados, a falta de disposição para o estudo e para o trabalho, o esporte cada vez mais violento, a destruição da saúde, o desânimo causado pela falta de horizontes e de oportunidades, os relacionamentos sem compromisso, amizades maléficas e daninhas, as filosofias que dispensam a existência de alguém superior, isto é, a falta de uma religião pessoal e da crença num Deus verdadeiro. Enfim, o cardápio é variadíssimo, e esse garçom dos infernos sabe o que oferecer em cada caso.

Eu sou pai de cinco meninas, cinco moças, cujas idades variam da pré-adolescência até a idade adulta, sendo uma delas já casada. Sou um pai inteiramente apaixonado pelas filhas, e digo sem medo de errar ou estar exagerando: daria, sem pestanejar, a minha vida por qualquer uma delas. Como todo pai que acompanha de modo intenso o desenvolvimento dos filhos nesse mundo chamado pós-moderno, e que procura estar antenado com tudo que ocorre em volta, sou também um pai preocupado, atônito e muitas vezes angustiado. Quando alguma crise comportamental ou de relacionamento se aproxima do meu lar, eu acordo muitas vezes de madrugada para orar a Deus, pedindo que me dê sabedoria, tolerância, compreensão e amor. E nesse processo de conviver com os filhos e educá-los não só para essa vida temporal, mas, principalmente para a vida eterna, tenho errado e acertado. Talvez em quantidades iguais.

Entendo que não é fácil ser jovem no mundo atual. A despeito de todos os avanços tecnológicos, e até por isso mesmo, o jovem tem a sua frente uma variedade imensa, indescritível, impossível de ser digerida de forma adequada, de opções, de alternativas, de possibilidades, em todas as áreas de interesse. Como também não é fácil ser pais de jovens que vivem nesse cenário, o distanciamento nunca foi tão grande. A dificuldade para encontrar e manter desimpedido o caminho, manter aberta a porta para o coração da criança e do jovem, é enorme, e em grande parte das vezes nos encontramos em uma encruzilhada, ou pior ainda, em um beco sem saída.

Considerando então, a disposição do maligno em levar para longe os nossos filhos, e as condições cruéis de um mundo sem regras, sem amor e sem oportunidades, um mundo hediondo, que mata as suas crianças e jovens, temos chances apertadas, não podemos perder tempo, não podemos ficar parados, não podemos descansar. Saibam vocês que me ouvem, e que são pais, que lá fora, tem muita gente querendo o seu filho, querendo a sua filha, e nem sempre com as melhores intenções. Se não ocupamos o nosso espaço ao lado deles, outros ocuparão, e poderão ser companhias das mais desagradáveis e daninhas nessa viagem perigosa pela vida.

Nós temos uma fé e uma militância cristãs, cremos num Deus que deu Seu próprio Filho - uma criança - em nosso favor, cremos num Cristo Jesus, que morreu jovem, e que amava e ama as crianças, chegando a dá-las como modelo para quem quer entrar no Reino dos Céus. E é a Eles que temos que recorrer em busca de ajuda, em busca de equilíbrio e de discernimento para lidar com nossos filhos.

Uma boa parte, e eu diria até, a maior parte, da responsabilidade dos caminhos e das escolhas que nossos filhos tomam pela vida, é nossa, como pais, que muitas vezes nos descuidamos da nossa função, não os ajudamos quando e da forma que precisam, não estamos presentes quando mais necessitam, damos maus exemplos, somos intolerantes, contraditórios, muitas vezes somos fracos, vivemos sem regras. Temos que nos convencer de que somos pais imperfeitos, e precisamos busca de Deus sabedoria para transmitir aos nossos filhos. Temos que ser firmes - e estou falando pra mim mesmo - ou perderemos as rédeas.

Che Guevara foi um guerrilheiro histórico, por quem não chego a ter nenhuma admiração especial. Ele disse uma vez uma frase, ou é atribuída a ele uma frase mais ou menos assim: "Hay que ser duro, pero sin nunca perder la ternura." Referia-se ele à maneira como tratar os inimigos na guerra. Estamos numa guerra, embora nesse caso não estejamos tratando com um inimigo, e sim com aqueles a quem mais amamos nessa vida: nossos filhos e filhas. Precisamos ser firmes e lhes impor regras e limites - isso todo psicólogo ensina- mas, não podemos jamais perder a ternura.

Davi, o rei de Israel, foi um homem segundo o coração de Deus, mas foi um péssimo pai. Não deu bons exemplos, teve conflitos com praticamente todos os seus filhos, houve acontecimentos trágicos, tenebrosos, na sua família, incluindo assassinatos e incesto entre irmãos, seus filhos não só o abandonaram, mas, um deles até se tornou seu inimigo e guerreou contra ele. Por outro lado, Saul, que tristemente se afastou de Deus, parece ter sido um bom pai. Teve a lealdade e o respeito de seus filhos até o fim, e vários deles - incluindo Jonatas, o melhor de todos - morreram ao seu lado, em batalha, lutando guerra santa pelo povo de Israel. O fato de sermos cristãos não nos livra das mazelas que acometem os lares e as famílias, mas, pelo contrário, até nos tornam alvos preferenciais de satanás.

E esse amado Davi, que conheceu tanto o pecado mais degradante quanto o perdão mais completo e restaurador, disse assim no Salmo 144:12: "Que nossos filhos sejam, na sua mocidade, como plantas viçosas, e nossas filhas, como pedras angulares, lavradas como colunas de palácio." Ainda Davi, no Salmo 127:3-5: "Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão. Como flechas na mão do valente, assim são os filhos da mocidade. Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava.".

Sempre que falo sobre filhos, ou sobre crianças, costumo dizer que dentre as muitas bênçãos que Deus nos dá - e são muitas - abaixo de Cristo, o dom de Deus, nossos filhos constituem o topo dessas bênçãos. Eu considero que não há nada na vida mais importante que eles. Com todas as preocupações que temos em relação a eles, com todas as dificuldades associadas à tarefa de educar e fazê-los crescer de forma honrada e no temor de Deus, com todas as horas de sono perdidas pensando neles, lutando contra enfermidades, com todo o trabalho duro para prover-lhes o sustento e a educação, eles constituem o melhor que recebemos de Deus nessa vida.

Nem todos somos ou seremos pais, mas todos somos filhos, porque é nessa condição que entramos e saímos da vida. O próprio Deus, quando um dia decidiu morar entre os homens, cumpriu o procedimento natural de nascer aqui como criança, teve pai e mãe humanos. Isso mostra em que elevada conta Ele tem esse relacionamento familiar, na realidade, estabelecido por Ele na criação quando mandou que o homem se multiplicasse e enchesse a terra.

Nossas crianças são tão importantes para Deus, que Cristo disse uma vez que os anjos delas veem constantemente, todo o tempo, a face de Deus, tendo assim como que uma espécie de prioridade para adentrar a sala do trono de Deus, com certeza para levarem as necessidades, angústias, anseios de nossos filhos ao Pai.

Terminando, eu quero deixar com vocês algo que já comentei essa semana no Facebook dos ouvintes da Rádio Moema, e que deu título à nossa palestra de hoje. Deus tem uma promessa maravilhosa para todos os pais que sofrem por verem e saberem que seus filhos estão longe deles, longe das coisas de Deus, longe do aconchego da família, e até mesmo, embora fisicamente próximos, muitas vezes estão distantes no afeto, na emoção, com relacionamento desgastado e às vezes destruído. Essa é uma situação aflitiva, extremamente dolorosa. São palavras quase desconhecidas, de um profeta chamado de "chorão", pelos muitos lamentos que apresentou a Deus em seu tempo. São palavras proféticas, e constituem também uma promessa linda. Referia-se ele aos filhos de pais dos reinos de Israel e Judá, que estavam em cativeiro, longe da terra natal, literalmente em terras do inimigo. Esses pais, assim como muitos de nós hoje, choravam e desejavam a volta de seus filhos, porém, sem esperança de que isso ainda viesse a acontecer. E Deus, em Sua infinita misericórdia lhes mandou essa mensagem através de Jeremias, e manda também hoje a todos vocês que choram pelas mesmas razoes:

"Assim diz o SENHOR: Reprime a tua voz de choro e as lágrimas de teus olhos; porque há recompensa para as tuas obras, diz o SENHOR, pois os teus filhos voltarão da terra do inimigo. Há esperança para o teu futuro, diz o SENHOR, porque teus filhos voltarão para os seus territórios."

Na versão da Bíblia na Linguagem de Hoje, diz de forma mais coloquial, assim:

"Pare de chorar e enxugue as suas lágrimas. Tudo o que você fez pelos seus filhos será recompensado; eles voltarão da terra do inimigo. Sou eu, o SENHOR, quem está falando. Há esperança para você no futuro; os seus filhos voltarão para casa. Sou eu, o SENHOR, quem está falando."

Mas, veja que essa é uma promessa que entende que você fez a sua parte, que você fez por eles o que julga que deveria ter feito, não foi um pai ou uma mãe displicente e irresponsável. Então, ore, e descanse. Mas, ainda que você não tenha feito o que deveria - e todos nós falhamos aqui e ali, não tenha duvida - aceite o perdão de Deus que Ele em Sua misericórdia já disponibilizou pra você, coloque-se na mão dEle, e jamais deixe de orar por seus filhos. Deus o recompensará, e seus filhos, sim, um dia, voltarão para casa, vindos da terra do inimigo.

Que Deus nos proteja a todos, pais e filhos, que o Seu Espirito possa estar conosco, ensinando-nos, como pais, a agir com nossos filhos da forma mais amorável, compreensiva e tolerante que possível, e como filhos, a aceitarmos a orientação, a guia e mesmo a repreensão de nossos pais. Esse relacionamento de família é a maior benção que Deus deu ao ser humano.

Autor: Mário Jorge Lima

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