Postado em: sexta-feira, 1 de julho de 2011

8(9) - Não nos induzas à tentação

Estamos quase no final da nossa tão amada e apreciada oração modelo, a ORAÇÃO DO SENHOR. E chegamos também à parte que talvez seja a mais complicada, mais difícil de compreender e que tem intrigado teólogos e estudiosos da Bíblia ao longo de todos os séculos, desde que o Salvador pronunciou essas frases finais.

Vejam que eu enunciei o titulo da Palestra usando a frase "Não nos induzas a tentação". É possível que alguns de vocês esteja aí pensando e dizendo que eu devo estar equivocado ou talvez usando uma tradução da Bíblia não muito adequada, pois o correto seria "Não nos deixes cair em tentação".

Pois eu lamento desapontá-los e informo que não estou errado, que a frase correta dos originais gregos do Novo Testamento é exatamente essa que eu enunciei: "Não nos induzas à tentação". Ao sentar para preparar essa matéria para hoje eu pedi a Deus que me desse as melhores palavras para transmitir a vocês uma ideia clara sobre esse assunto, de acordo com a Sua vontade.

Eu confesso que sempre tive e ainda tenho dificuldade de digerir essa frase da Oração do Senhor, desde criança, e sempre optei por orar a outra, mais conhecida, bem mais tranquila - segundo o meu entendimento - que diz "Não dos deixes cair em tentação". Causa verdadeira perplexidade pensar que Deus nos induza à tentação, ou seja, nos tente, nos leve a pecar, a fraquejar e a nos afastarmos dEle. Como o Pai das luzes iria agora me empurrar para o meio das trevas? Isso contraria tudo que conhecemos pela Bíblia a respeito de Deus e Seu caráter.

Excepcionalmente, talvez tenhamos hoje que abordar, bem rapidamente, alguns aspectos técnicos das traduções, apenas para entender mais claramente essa aparente contradição. Eu venho empreendendo, já há algum tempo, uma pesquisa razoável a respeito desse assunto, em livros, em diversas versões da Bíblia e também em bons sites da Internet.

Há algo que vamos desde o início estabelecer: pelo que se encontra nas Escrituras, Deus não tenta a ninguém, no sentido de incitar a pecar, de levar a praticar o mal. Tiago deixa isso bem claro no texto que se encontra no capítulo 1:13 de sua epistola: "Ninguém, sendo tentado, diga: 'de Deus sou tentado'; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta". Que isso, portanto, fique bem dito, respire fundo aí e sinta-se aliviado quanto a esse aspecto. Não, o nosso Deus não nos leva a pecar, e de modo algum nos tenta. Essa é uma blasfêmia na qual não vamos incorrer.

Mas, por outro lado, a frase "Não nos deixes cair em tentação" não é fiel ao original, não se encontra em nenhum dos manuscritos gregos que foram utilizados pelos reformadores para fazer suas traduções da Bíblia, notadamente a versão alemã feita por Lutero ou a King James em inglês, bem como a nossa Almeida Revista e Corrigida (ARC), feita por João Ferreira de Almeida, uma das mais coerentes e corretas versões da Bíblia em português. Essa frase, muito seguramente, foi utilizada por tradutores, que ao invés de simplesmente traduzirem, resolveram interpretar o que Jesus dissera, provavelmente preocupados e com a melhor das intenções, ou seja, de não chocar as pessoas. E ela, de fato, parece ser bem mais razoável, mais bonita, e traz uma solução cômoda para esse problema.

Não vou entrar aqui em debates eruditos nem me posicionar a respeito dos originais chamados Textus Receptus x Texto Critico, ou comparar as chamadas Bíblias Alexandrinas, não tão exatas com os textos gregos (como a Almeida Revista e Atualizada, a Bíblia na Linguagem de Hoje, a Bíblia Viva, a Nova Versão Internacional, a Bíblia de Jerusalém) contra as chamadas Bíblias da Reforma, mais alinhadas com os textos gregos (como a Almeida Revista e Corrigida, ou Almeida Corrigida e Fiel, entre outras poucas). Isso é coisa pra teólogos e linguistas e é bastante complicada pra nossa cabeça de cristãos leigos nessas matérias.

Aliás, eu vou dizer a vocês uma coisa: onde o homem põe a mão, não tem jeito, resulta confusão. É um verdadeiro milagre que o pensamento divino, a mensagem básica e primordial de salvação de Deus ao homem tenha sido preservada desde que foi dada aos profetas e apóstolos e tenha chegado aos nossos dias razoavelmente limpa e compreensível, apesar de todas as tentativas de Satanás para influir e influenciar tradutores, copistas, publicadores, clero, igrejas ao longo dos séculos. Nós sabemos que o inspirado não são as palavras da linguagem humana, nem o meio, o papel a matéria física. O inspirado foi o pensamento que chegou à mente dos escritores bíblicos e os moveu a escrever ou falar. Mas a partir do momento em que eles se dispuseram a escrever e falar, é logico que já estavam sujeitos aos erros e falhas do instrumento humano, com natureza pecadora e caída. Nós somos de fato um problema, onde pomos a mão trazemos a corrupção.

Mas, grande é a misericórdia do Senhor! Voltando ao nosso texto final da Oração do Pai Nosso, a melhor solução talvez seja buscar entender isso dentro da própria Bíblia. Lucas, nosso amado médico-evangelista, o único escritor da Bíblia que não era judeu, homem culto e inspirado, tem ajudado a solucionar e compreender melhor algumas coisas ditas por Mateus. Aqui ele nos dá uma boa ajuda ao enunciar a mesma oração, em Lucas 11:4, da seguinte forma: "E não nos conduzas em tentação, mas livra-nos do mal".

O verbo “conduzir” já dá uma ideia um pouco diferente do verbo “induzir”, ajuda-nos a compreender melhor. Conduzir não força, apenas leva, acompanha, ao contrário de induzir, que passa a ideia de empurrar, pressionar, seduzir. Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado. Abraão foi conduzido por Deus ao Monte Moriá para ser provado.

E aqui também entra em cena um novo componente linguístico: eu usei o verbo “tentar” e também o verbo “provar”. Na realidade, segundo vi no Novo Testamento no grego transliterado, em vários textos, a palavra é exatamente a mesma para “tentação” e “provação”: peirasmon. O que determina se é algo positivo (para nos testar, experimentar) ou algo negativo (para nos derrubar e enganar) é o contexto em que é usada e de quem isso vem. Se vem de Deus, podemos entender que é provação, tem um bom propósito, num contexto de nos polir, nos depurar, nos fazer crescer na graça. Mas, se vem de Satanás podemos entender como tentação, tem um mau propósito, no contexto de nos degradar e fazer afundar no pecado e na desgraça.

E é claro, todo cristão sabe por experiência própria, que Deus usa as provações do viver, até mesmo permite situações amargas para puxar o brilho espiritual que quer ver em cada um de nós. Infelizmente, muitos de nós precisamos disso, talvez seja a única forma de aprendermos de Deus. O apóstolo Tiago, irmão de Jesus, que sabia muito a esse respeito (leiam sua epístola com atenção), também disse no capitulo 1:2-3: "Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em varias tentações [provações - peraismois]; sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência.".

Portanto, após essas rápidas considerações sobre induzir / conduzir e tentação / provação, uma tradução da frase dita na Oração do Senhor, mais de acordo com todo o conteúdo bíblico a respeito de Deus e Seu caráter, e que nos ajuda a compreender o que Jesus ensinou, seria: "Não nos conduzas em provação".

E nesse caso ainda fica uma ultima questão: se ser conduzido por Deus em provação, logicamente com o objetivo de ser experimentado, provado, depurado e ter a fé fortalecida e aumentada, é, em essência, uma coisa positiva e até mesmo desejável, por que então pedir que Ele não nos leve a essa situação e nos livre dela?

Quero dizer, sem medo de errar: não se assuste, esse é um pedido inteiramente válido. Não fosse assim e Jesus não nos teria ensinado a orar dessa forma. É perfeitamente compreensível que o ser humano não queira passar por uma provação dura e queira ficar livre dela, e mais ainda, que ore e peça isso a Deus, mesmo sabendo que aquilo é de alguma forma, necessário. Foi o que o próprio Jesus orou no Getsêmani. Ele sabia quão benéfico, e mais que isso, quão indispensável seria para toda a humanidade que Ele morresse morte eterna, uma morte que o homem não poderia morrer. Mas ainda assim pediu: "Se possível, Pai, passa de mim esse cálice sem que eu o beba".

E você há de dizer: mas, Ele acrescentou "faça-se a Tua vontade e não a minha". Sim, é verdade. E a Oração do Senhor já começa dizendo exatamente isso: "Seja feita a Tua vontade". Então, fique tranquilo, está tudo certo, não há nada de errado ai, ore a Deus sem susto com as palavras originais, sem constrangimento, sem medo de estar blasfemando, sem medo de estar errado, não precisa dar voltas, não precisa usar outras frases para suavizar o que o Mestre ensinou: "Não nos conduzas em provação". Esse é o sentido exato de "Não nos induzas a tentação".

Porém, se ainda assim você se sentir constrangido e não quiser repetir as palavras originais desta oração, e preferir orar da forma mais conhecida, "não nos deixes cair em tentação", faça isso, não tem problema algum. Não é porque não está no original grego como sendo a frase exata narrada pelos evangelistas, que seja errado pedir isso a Deus. Converse com Ele da forma em que você se sentir melhor, enuncie seus anseios da maneira que o seu coração pedir, Ele saberá entende-lo. Ele quer que você se aproxime dEle. E daqui pra frente, não censure e nem ache que está errado ou blasfemando quem orar: "Não nos induzas a tentação", até porque agora você já sabe o que isso significa. E lembre-se, esse é apenas um modelo de oração.

No próximo programa nós vamos encerrar as reflexões sobre a Oração do Senhor. Ainda há algumas coisas muito interessantes a considerar nesse finalzinho dela.

Autor: Mário Jorge Lima

1 comentários:

Gostei da sua explicação.
Como você, desde pequena tinha essa dúvida e agora foi sanada.
Muito obrigada.

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