Postado em: sexta-feira, 24 de junho de 2011

7(9) - Perdoa as nossas dívidas, como perdoamos aos nossos devedores

Na seqüência, já nos aproximando do final da Oração do Senhor, encontramos um pedido feito a Deus, que é de extrema seriedade, e que acrescenta uma enorme responsabilidade á nossa prece: "Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.".

O perdão, um dom de Deus, dentro do plano de redenção e restauração do ser humano, é o elemento fornecido pelo Céu que quebra todas as barreiras do mal. É a ferramenta que corrige e recupera todas as sequelas deixadas pelo pecado e pela separação entre a criatura e o Criador, e possibilita um novo começo, possibilita a volta ao plano original de Deus de dar vida eterna ao homem.

Muito já foi dito, escrito, pregado e cantado a respeito do perdão. Milhões, eu diria, bilhões de sermões, livros, musicas e poemas foram criados tendo como tema esse dom maravilhoso e salvífico. Mas o tema jamais foi ou será esgotado. Encontraremos sempre uma nuance nova, uma faceta pouco apreciada ainda sobre esse presente de Deus. Nessa nossa palestra vamos nos ater apenas a um ou dois aspectos do perdão.

Perdão tem tudo a ver com graça, e pode mesmo ser um sinônimo dela. A graça de Deus, segundo entendemos, tem duas vertentes principais:

1. Uma vertical, maravilhosa e plena, que flui de Deus, no alto, para o homem, uma gigantesca cachoeira de vida, e vida em abundância, que nos trouxe todas as bênçãos da redenção, da religião - que significa re-ligação - e nos deu Jesus Cristo, o Filho de Deus, em pessoa, assumindo nossa culpa e pagando nossa dívida eterna.

2. Outra, horizontal, que flui de nós para os nossos semelhantes, para aqueles que nos cercam, para os que convivem conosco em todos os ambientes da nossa vida, ou seja, no lar, na escola, no trabalho, na igreja, nas ruas. Essa vertente precisa existir, ela é como um rio resultante da queda d’água que é a vertente anterior vinda de Deus, e que mostra e prova que recebemos na vida aquela outra graça maior.

No momento em que preparava essa palestra veio-me à mente aquela conhecida parábola contada por Jesus e que está lá em Mateus 18:21-35. É a historia de um homem devedor ao rei, de uma grande quantia, absolutamente impagável, por mais tempo que ele vivesse e trabalhasse. Ele clamou ao soberano por misericórdia, e foi perdoado, a sua dívida foi cancelada. No entanto, ao sair dali, livre e sem dívida alguma, encontrou um semelhante seu, que lhe devia algo infinitamente menor e menos valioso, mas não o perdoou, exigiu pronto pagamento e mesmo mandou prende-lo por não ter como pagar. Assim, acabou sendo chamado de volta pelo rei, e foi jogado na prisão, porque foi incompassivo. Recebeu graça plena do alto, mas não distribuiu essa graça ao seu redor.

PERDOA AS NOSSAS DÍVIDAS ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES. Ao pedirmos isso, sugerimos a Deus, e aceitamos cabalmente, que Ele não nos perdoe as faltas e pecados, a não ser que também perdoemos a quem nos deve qualquer coisa.

Perdoar é um dos atos básicos da fé crista. Não é um sentimento ou emoção. Também não é uma opção para o cristão. É um mandamento. “Sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo vos perdoou” Efésios 4.32. Deve ser um ato da nossa vontade submetida inteiramente à vontade de Deus. É uma decisão racional da pessoa.

Logo após nos ensinar a oração sobre a qual vimos refletindo, lá no admirável Sermão da Montanha, o Mestre completou: “se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas”. Mateus 6.15. É isso mesmo que você acabou de ouvir, nas palavras do Salvador: se você não perdoar o seu semelhante, seu amigo, seu parente, seu vizinho, um desconhecido qualquer, também não será perdoado por Deus. Ou seja, o perdão de Deus a você está diretamente vinculado ao seu perdão em relação ao seu semelhante. Não tenha a menor duvida quanto a isso.

É, incompatível com a vida de cristão viver banhado, imerso no perdão de Deus, mas, sem fazer a mesma coisa em relação a quem nos ofendeu, machucou, humilhou, injuriou. Não é, de modo algum, uma atitude fácil, temos que reconhecer, ela tem um alto custo para quem perdoa, o custo da dívida, às vezes da vergonha, do escárnio, da injúria. Mas, Deus não espera de nós menos que isso.

E aquelas 70 x 7 mencionadas por Jesus ao responder a Pedro sobre quantas vezes perdoar alguém, simplesmente mostram que não há limite para perdoar, o perdão é algo contínuo, tem que estar sempre disponível. Se for pedido, tem que ser concedido. É assim que Deus age conosco.

Agora, isso nos leva a uma reflexão muito interessante. Assim como o amor, o perdão é pleno, gracioso, restaurador e espontâneo. Mas, tem uma diferença básica: enquanto o amor, que é incondicional ao ser dado, e continua incondicional para ser experimentado na vida, o perdão, diferentemente, tem uma condição básica para ser sentido e usufruído. Sob esse aspecto que vou agora citar, o perdão é condicional.

Para que o perdão seja uma benção na vida de quem é perdoado, ele precisa ser aceito. A disposição, a vontade do perdoador, que é Deus, em perdoar, já existe, sempre existiu. Em outras palavras, o perdão já está dado, desde tempos imemoriais. Mas para acontecer, precisa ser aceito. E a forma de aceitá-lo é uma só: arrependimento e confissão. Não há outra maneira de receber o perdão na vida. Essa é a única, necessária e suficiente condição. Diferentemente, pois, do amor, o perdão precisa dessa contrapartida por parte do perdoado. Esse é um recibo que você, cada um de nós precisa assinar.

No perdão humano, ou seja, o perdão entre nós e nossos semelhantes, é assim também. Quando você se dispõe a perdoar alguém e de fato, mental e emocionalmente perdoa, se esse alguém não aceitar o perdão - e a forma de aceitar é o reconhecimento do erro - de nada serviu pra ele o seu ato perdoador. Serviu pra você, pois há um lado do perdão que abençoa o perdoador, mas, para o perdoado de nada valeu.

Foi essa a situação do Judas, o traidor. Ele estava perdoado, ou seja, o perdão de Cristo Jesus estava ali estendido de forma plena a ele, na Santa Ceia e no lava-pés. Mas Ele não quis. Rejeitou, não se arrependeu e não confessou. Houvesse ele feito isso, ainda que mentalmente, e Jesus, sem a menor dúvida, aceitaria seu pedido e misericordiosamente o perdoaria e restauraria. Por certo, Jesus ainda assim morreria, mas não por obra de Judas. Mas, Jesus, que lia os corações, viu a real situação de Judas, e então, tristemente, sentenciou: "o que tens a fazer, faze-o depressa."

Voltando ao teor da Oração do Senhor, perdoar o semelhante é mais importante do que cultuar, do que ofertar e dar dízimos a Deus. A tal ponto que, como disse Jesus lá no Sermão da Montanha, se ao cultuar a Deus com suas ofertas você lembrar que seu irmão pode ter algo contra você, deve deixar sua oferta de lado, deve sair do culto, deve procurar seu irmão e se acertar com ele. Não importa se você é o devedor ou o credor nessa questão com seu irmão, isso não fica claro no texto bíblico. Seu irmão pode ter alguma coisa contra você justa ou injustamente. Mas, em qualquer dos casos, vá até ele e cumpra o mandamento.

O perdão é um assunto vasto, dá pra falar muito sobre ele, como eu disse acima, sem esgotar o assunto. Em próximos programas voltaremos a ele, mas hoje, convença-se de que o perdão de Deus está vinculado ao seu perdão. A grande cachoeira de graça que você recebeu do alto, deve formar embaixo um rio caudaloso, também de graça a ser compartilhada e espalhada aos seus semelhantes.

Se procurarmos colocar graça, perdão, misericórdia, amabilidade, gentileza em cada ato nosso do dia-a-dia, em cada relacionamento nosso com parentes, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos, mesmo não recebendo na mesma moeda, estaremos fazendo isso, espalhando na horizontal toda a benção da graça soberana, salvífica e plena que recebemos de Deus na vertical.

Autor: Mário Jorge Lima

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