Seja bem-vindo(a) ao meu Blog. Sou Mário Jorge Lima, e abaixo estão textos meus, apresentados como sermões, palestras, ou simplesmente frutos de minhas reflexões pessoais.

Sou pai dessas 5 moças ao lado, Mariana, Isabela, Júlia, Laura e Luíza, a quem amo mais que a mim mesmo. Quando escrevo sobre assuntos espirituais, quando apresento palestras ou sermões, é primeiramente para elas e pensando nelas que estou escrevendo e falando.

Esses textos, atualizados sempre que eu os crio, e para isso não tenho uma periodicidade definida, são o legado escrito que deixarei a elas, sem erudição, sem proselitismo, sem "filosofismos". São as coisas em que de fato creio e pelas quais hoje vivo. Se Deus me der o tempo e a chance necessários, ainda pretendo escrever um livro com estas reflexões. Se não conseguir, elas estarão pra sempre aqui nesse Blog.

OBS: As palestras são organizadas com as mais recentes sempre no Topo.

Postado em: sexta-feira, 24 de junho de 2011

7(9) - Perdoa as nossas dívidas, como perdoamos aos nossos devedores

Na seqüência, já nos aproximando do final da Oração do Senhor, encontramos um pedido feito a Deus, que é de extrema seriedade, e que acrescenta uma enorme responsabilidade á nossa prece: "Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.".

O perdão, um dom de Deus, dentro do plano de redenção e restauração do ser humano, é o elemento fornecido pelo Céu que quebra todas as barreiras do mal. É a ferramenta que corrige e recupera todas as sequelas deixadas pelo pecado e pela separação entre a criatura e o Criador, e possibilita um novo começo, possibilita a volta ao plano original de Deus de dar vida eterna ao homem.

Muito já foi dito, escrito, pregado e cantado a respeito do perdão. Milhões, eu diria, bilhões de sermões, livros, musicas e poemas foram criados tendo como tema esse dom maravilhoso e salvífico. Mas o tema jamais foi ou será esgotado. Encontraremos sempre uma nuance nova, uma faceta pouco apreciada ainda sobre esse presente de Deus. Nessa nossa palestra vamos nos ater apenas a um ou dois aspectos do perdão.

Perdão tem tudo a ver com graça, e pode mesmo ser um sinônimo dela. A graça de Deus, segundo entendemos, tem duas vertentes principais:

1. Uma vertical, maravilhosa e plena, que flui de Deus, no alto, para o homem, uma gigantesca cachoeira de vida, e vida em abundância, que nos trouxe todas as bênçãos da redenção, da religião - que significa re-ligação - e nos deu Jesus Cristo, o Filho de Deus, em pessoa, assumindo nossa culpa e pagando nossa dívida eterna.

2. Outra, horizontal, que flui de nós para os nossos semelhantes, para aqueles que nos cercam, para os que convivem conosco em todos os ambientes da nossa vida, ou seja, no lar, na escola, no trabalho, na igreja, nas ruas. Essa vertente precisa existir, ela é como um rio resultante da queda d’água que é a vertente anterior vinda de Deus, e que mostra e prova que recebemos na vida aquela outra graça maior.

No momento em que preparava essa palestra veio-me à mente aquela conhecida parábola contada por Jesus e que está lá em Mateus 18:21-35. É a historia de um homem devedor ao rei, de uma grande quantia, absolutamente impagável, por mais tempo que ele vivesse e trabalhasse. Ele clamou ao soberano por misericórdia, e foi perdoado, a sua dívida foi cancelada. No entanto, ao sair dali, livre e sem dívida alguma, encontrou um semelhante seu, que lhe devia algo infinitamente menor e menos valioso, mas não o perdoou, exigiu pronto pagamento e mesmo mandou prende-lo por não ter como pagar. Assim, acabou sendo chamado de volta pelo rei, e foi jogado na prisão, porque foi incompassivo. Recebeu graça plena do alto, mas não distribuiu essa graça ao seu redor.

PERDOA AS NOSSAS DÍVIDAS ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES. Ao pedirmos isso, sugerimos a Deus, e aceitamos cabalmente, que Ele não nos perdoe as faltas e pecados, a não ser que também perdoemos a quem nos deve qualquer coisa.

Perdoar é um dos atos básicos da fé crista. Não é um sentimento ou emoção. Também não é uma opção para o cristão. É um mandamento. “Sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo vos perdoou” Efésios 4.32. Deve ser um ato da nossa vontade submetida inteiramente à vontade de Deus. É uma decisão racional da pessoa.

Logo após nos ensinar a oração sobre a qual vimos refletindo, lá no admirável Sermão da Montanha, o Mestre completou: “se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas”. Mateus 6.15. É isso mesmo que você acabou de ouvir, nas palavras do Salvador: se você não perdoar o seu semelhante, seu amigo, seu parente, seu vizinho, um desconhecido qualquer, também não será perdoado por Deus. Ou seja, o perdão de Deus a você está diretamente vinculado ao seu perdão em relação ao seu semelhante. Não tenha a menor duvida quanto a isso.

É, incompatível com a vida de cristão viver banhado, imerso no perdão de Deus, mas, sem fazer a mesma coisa em relação a quem nos ofendeu, machucou, humilhou, injuriou. Não é, de modo algum, uma atitude fácil, temos que reconhecer, ela tem um alto custo para quem perdoa, o custo da dívida, às vezes da vergonha, do escárnio, da injúria. Mas, Deus não espera de nós menos que isso.

E aquelas 70 x 7 mencionadas por Jesus ao responder a Pedro sobre quantas vezes perdoar alguém, simplesmente mostram que não há limite para perdoar, o perdão é algo contínuo, tem que estar sempre disponível. Se for pedido, tem que ser concedido. É assim que Deus age conosco.

Agora, isso nos leva a uma reflexão muito interessante. Assim como o amor, o perdão é pleno, gracioso, restaurador e espontâneo. Mas, tem uma diferença básica: enquanto o amor, que é incondicional ao ser dado, e continua incondicional para ser experimentado na vida, o perdão, diferentemente, tem uma condição básica para ser sentido e usufruído. Sob esse aspecto que vou agora citar, o perdão é condicional.

Para que o perdão seja uma benção na vida de quem é perdoado, ele precisa ser aceito. A disposição, a vontade do perdoador, que é Deus, em perdoar, já existe, sempre existiu. Em outras palavras, o perdão já está dado, desde tempos imemoriais. Mas para acontecer, precisa ser aceito. E a forma de aceitá-lo é uma só: arrependimento e confissão. Não há outra maneira de receber o perdão na vida. Essa é a única, necessária e suficiente condição. Diferentemente, pois, do amor, o perdão precisa dessa contrapartida por parte do perdoado. Esse é um recibo que você, cada um de nós precisa assinar.

No perdão humano, ou seja, o perdão entre nós e nossos semelhantes, é assim também. Quando você se dispõe a perdoar alguém e de fato, mental e emocionalmente perdoa, se esse alguém não aceitar o perdão - e a forma de aceitar é o reconhecimento do erro - de nada serviu pra ele o seu ato perdoador. Serviu pra você, pois há um lado do perdão que abençoa o perdoador, mas, para o perdoado de nada valeu.

Foi essa a situação do Judas, o traidor. Ele estava perdoado, ou seja, o perdão de Cristo Jesus estava ali estendido de forma plena a ele, na Santa Ceia e no lava-pés. Mas Ele não quis. Rejeitou, não se arrependeu e não confessou. Houvesse ele feito isso, ainda que mentalmente, e Jesus, sem a menor dúvida, aceitaria seu pedido e misericordiosamente o perdoaria e restauraria. Por certo, Jesus ainda assim morreria, mas não por obra de Judas. Mas, Jesus, que lia os corações, viu a real situação de Judas, e então, tristemente, sentenciou: "o que tens a fazer, faze-o depressa."

Voltando ao teor da Oração do Senhor, perdoar o semelhante é mais importante do que cultuar, do que ofertar e dar dízimos a Deus. A tal ponto que, como disse Jesus lá no Sermão da Montanha, se ao cultuar a Deus com suas ofertas você lembrar que seu irmão pode ter algo contra você, deve deixar sua oferta de lado, deve sair do culto, deve procurar seu irmão e se acertar com ele. Não importa se você é o devedor ou o credor nessa questão com seu irmão, isso não fica claro no texto bíblico. Seu irmão pode ter alguma coisa contra você justa ou injustamente. Mas, em qualquer dos casos, vá até ele e cumpra o mandamento.

O perdão é um assunto vasto, dá pra falar muito sobre ele, como eu disse acima, sem esgotar o assunto. Em próximos programas voltaremos a ele, mas hoje, convença-se de que o perdão de Deus está vinculado ao seu perdão. A grande cachoeira de graça que você recebeu do alto, deve formar embaixo um rio caudaloso, também de graça a ser compartilhada e espalhada aos seus semelhantes.

Se procurarmos colocar graça, perdão, misericórdia, amabilidade, gentileza em cada ato nosso do dia-a-dia, em cada relacionamento nosso com parentes, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos, mesmo não recebendo na mesma moeda, estaremos fazendo isso, espalhando na horizontal toda a benção da graça soberana, salvífica e plena que recebemos de Deus na vertical.

Autor: Mário Jorge Lima

Postado em: sexta-feira, 17 de junho de 2011

6(9) - O pão nosso de cada dia dá-nos hoje

Vamos em frente com nossas reflexões, desta vez abordando a frase O PÃO NOSSO DE CADA DIA, DÁ-NOS HOJE. Na sequência dos desejos e anseios apresentados a Deus por quem ora esta prece, esse é o quarto deles. E vai direto, sem rodeios, a um pedido simples a respeito de algo do qual muito precisamos.

O pão sempre foi a representação genérica do alimento que precisamos para nossa subsistência e manutenção. Costumamos falar em "ganha-pão" quando nos referimos a atividades através das quais obtemos os recursos necessários para sustentar a nós mesmos e à nossa família. Eu diria que pão não se refere apenas ao alimento, mas, a tudo aquilo de que precisamos para viver.

Partir o pão, na refeição em família, orar sobre o pão agradecendo por termos o que comer, dividir o pão com quem tem menos que nós, são expressões que compreendemos bem e conseguimos com facilidade apreender o seu alcance.

Ao analisar esse pedido feito na oração do PAI NOSSO, me ocorrem diversas reflexões. Uma delas, sobre a qual quero me deter hoje, vem do entendimento que podemos ter da frase "pão nosso de cada dia". Significa que o pão é algo que temos que obter e conquistar diariamente, lutar por ele, busca-lo e adquiri-lo numa base diária. Nem sempre será possível acumular pão (ou seja, recursos) nos dias de abundancia e fartura para poder tê-lo disponível quando ele faltar ou ficar escasso.

Sendo assim, temos que orar pelas bênçãos do dia. Não precisamos orar para que Deus nos abençoe na nova semana, no novo mês ou no novo ano. As bênçãos são prometidas numa base diária. São sempre para as próximas 24 horas. Já pensou nisso? E foi nessa base diária que veio a recomendação de Cristo de que não deveríamos nos preocupar com a nossa subsistência, com o que haveríamos de comer, beber, vestir.

Jesus sabia do que estava falando. Sabia que essa seria, como é ate hoje, uma das maiores preocupações do ser humano. Sabia tanto, que repetiu essa admoestação naquele mesmo sermão. Temos que reconhecer que é muito difícil nos desligarmos dessas preocupações que tem a ver com o nosso bem-estar. E aqui se incluem preocupações com tudo aquilo que compõe a nossa vida, o nosso dia-a-dia e de nossa família, ou seja, alimentação, vestuário, moradia, compromissos, contas, negócios, estudos, projetos, saúde, planos e sonhos.

Acreditar que Deus cuida de tudo isso, coisas grandes e muitas delas quase insignificantes no nosso julgamento, é, acima de tudo, uma questão de fé, de muita fé. Descansar, certos de que Deus está vendo todas as nossas lutas, provações, dificuldades, tristezas, ansiedades, é, principalmente, relacionamento com Ele.

No Sermão da Montanha, onde Cristo ensinou essa prece, e falou sobre essas preocupações do dia-a-dia, ele solta outra frase bastante significativa e instigante. Dizendo que Deus sabe tudo que precisamos, e que devemos dar prioridade às coisas espirituais para que Ele nos acrescente tudo o mais, Jesus termina com esse pensamento: "basta a cada dia o seu mal".

Perceberam? Dessa forma, o Mestre admite claramente e afirma que cada dia pode ter, sim, uma cota de coisas ruins, uma carga de eventos desagradáveis, tristes, angustiantes, que Ele chama de mal. Isso é resultado do pecado e do mundo de pecado em que habitamos. Cada dia tem o seu mal, cada dia pode nos trazer aborrecimentos de diversas naturezas. São males do corpo e da alma. Males físicos e emocionais.

É preciso que saibamos disso. Aliás, a Palavra de Deus nunca nos enganou quanto a isso. Desde o Éden, ganhar o pão de cada dia deixou de ser uma atividade apenas de prazer e alegria, executada com recursos poderosos e sem falha, para se transformar em algo que se faz com suor e muitas vezes com lágrimas, sujeito a falhas, imperfeições e fracassos.

Podemos obter muita realização pessoal, profissional, material a partir daquilo que estudamos, que sabemos fazer, do nosso trabalho, da nossa profissão e dos nossos negócios. Deus nos abençoa diariamente nisso. Mas não nos enganemos: cada dia tem o seu mal. E temos que conviver com isso, aprender a lidar com isso, tirar lições disso, sabendo que Deus está no controle, e tanto quanto possível, temos que descansar, conscientes de que Deus nos dará o pão que precisamos.

Prestem atenção no que vou lhes dizer: Quando Cristo nos chama para nos fazer discípulos Seus, jamais promete uma vida sem dificuldades, sem tristezas, sem momentos ruins. Ele ate deixa-nos antever que esses momentos desagradáveis irão ocorrer, quando nos chama para "carregar uma cruz". A rigor, esse é o chamado do Evangelho. Um dia eu vou conversar aqui com vocês sobre o que eu penso que seja essa cruz que somos convidados a carregar.

Então, o que Ele nos promete é a assistência divina, o cuidado divino, o carinho divino, nos ajudando e ensinando a viver. A nossa MPB às vezes nos surpreende, e encontramos pequenas pérolas nela. Essa aqui, vejam só, de Roberto e Erasmo Carlos, gravada também pelos Titãs, e da qual eu gosto muito, dizia assim:

Quem espera que a vida seja feita de ilusão
Pode ate ficar maluco ou morrer na solidão
E preciso ter cuidado pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver
Toda pedra do caminho você pode retirar
Numa flor que tem espinhos você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem você pode escolher
É preciso saber viver

Ao orarmos pelo PÃO NOSSO DE CADA DIA, vamos considerar e saber de antemão que pode ser muito duro ganha-lo. Há pedras no caminho, o bem e o mal claramente existem e são antagônicos, e essa luta entre eles afeta profundamente a nossa vida. Mas, podemos escolher descansar no Senhor, temos que saber viver, acreditando que Ele tem interesse em nós.

Vejam esse pequeno Salmo de Davi, de número 131, que eu muito amo, que é muito confortador, e diz assim: "Senhor, o meu coração não é soberbo, nem os meus olhos são altivos; não me ocupo de assuntos grandes e maravilhosos demais para mim. Pelo contrário, tenho feito acalmar e sossegar a minha alma; qual criança desmamada sobre o seio de sua mãe, qual criança desmamada está a minha alma para comigo. Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre."

Jesus é o Pão da Vida. Quando oramos pelo pão nosso de cada dia, em última analise, também estamos orando para que Cristo esteja presente em nossa vida, em nosso lar, em nosso trabalho e seja nosso a cada dia, a cada momento. E temos que renovar esse estoque de Jesus na vida, diariamente. Não há alimento melhor para a alma.

Provavelmente vários dos que me leem vivem hoje com muita ansiedade, muito medo, muita apreensão em relação à sua vida material, familiar, seus relacionamentos, finanças, carreira, projetos, enfim, todas aquelas coisas que, conforme falei, também podemos incluir na expressão "pão nosso de cada dia". Eu vivo esse momento. Essa ansiedade tira a nossa paz. Pode parecer estranho dizer isso, mas não é fácil deixar que o Deus que cuida dos lírios do campo e das aves do céu, cuide também de nos. Queremos dar sempre as nossas próprias soluções. Somos impacientes e imediatistas. Eu sei do que estou falando.

Mas, faça o seguinte agora: feche os seus olhos, se quiser, apague a luz do seu quarto ou do seu escritório, eleve o pensamento a Deus, e pela fé, penetre na sala do trono de Deus. Sinta-se diante do trono de Deus e diante do Cordeiro, envolto pela influência santa do Seu Espirito.

Que Deus nos abençoe a todos, e nos leve a orar pelo pão de cada dia, sabendo que embora seja difícil ganhá-lo, se repousarmos tranquilos nos braços do Pai, podemos ter a certeza de que a cada momento Ele sabe o que precisamos. Ele nos guia e nos dá o seu favor, sabe o que é melhor para nós e alcançaremos misericórdia no momento oportuno.

Autor: Mário Jorge Lima

Postado em: sexta-feira, 3 de junho de 2011

5(9) - Seja Feita a Tua Vontade assim na Terra como no Céu

Vamos continuar nossas reflexões sobre a Oração do Senhor. Nossa frase de hoje é: Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu.

Frase de compromisso, aliás, como todas as frases da Oração do Pai Nosso. Nenhuma palavra, nenhuma frase dessa oração pode ser dita a Deus sem um grande compromisso e entrega da parte de quem ora. Estou batendo nessa tecla desde os primeiros comentários, porque quando falamos com Deus a conversa deve ser consciente, assumida, pensada. Estamos falando ao Criador, ao Rei de todo o universo.

Essa frase é similar à que Jesus orou no Getsêmani. "Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade." Mateus 26:42. Frase dita, frase assumida, decisão tomada.

Vamos nos deter um pouquinho sobre aquela cena. Jesus Cristo ali estava enfrentando o maior problema de Sua vida, o maior problema de todo o universo. O Filho de Deus, possuidor de vida em Si mesmo, outorgada pelo Pai, sendo Ele mesmo - de uma forma que não entendemos - um com o próprio Deus, santo, sem pecado, perfeito e infalível, ali estava, voluntariamente, para assumir sobre Si os pecados do ser humano, sendo que Ele mesmo nunca pecou.

Possuindo Ele - também de forma incompreensível para nossa mente - natureza humana, mas, sem pecado, iria entrar agora na parte final de Sua missão em nosso planeta. Ao assumir os nossos pecados, seria Ele "feito pecado por nós" - nas palavras do apóstolo Paulo - isso o manteria afastado de Deus, e era isso que, com efeito, O mataria: separação do Pai.

Cristo não queria passar por isso. Sua natureza humana pedia assim, queria, se possível, Se ver livre daquela situação, sem dúvida, nova e desconhecida para Ele, que sempre vivera, por assim dizer, no seio e na mente do Pai. E foi sobre isso que Ele orou. No entanto, Sua missão, para ser completa e restauradora para o ser humano, pagando, por amor, uma dívida que este não podia pagar, envolvia essa experiência.

E aqui vêm dois grandes ensinamentos que depreendemos desse tipo de pensamento, desse tipo de atitude, que nos leva a orar frase semelhante:

1) Jesus viera ao mundo com essa missão, isso tinha sido oferecido por Ele mesmo, que disse uma vez: "Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos." Marcos 10:45. Então esse era um assunto já acertado e resolvido entre Ele e o Pai, e, no entanto, ali, no momento decisivo Ele ainda apresentou a Deus um último pedido para, caso fosse possível, ficar livre daquela situação terrível.

Quando oramos a Deus acerca de qualquer problema, qualquer anseio, qualquer projeto, qualquer benção a ser alcançada, qualquer situação de grande angústia, devemos pedir claramente o que queremos, sem meias palavras, devemos verbalizar o que desejamos sem medo de sermos mal compreendidos ou mal vistos por Deus. "Pai, se possível, passa de mim esse cálice. Não quero bebe-lo, não quero passar por essa situação, não quero que isso aconteça, mas quero que aquilo outro se realize na minha vida." Não há erro nisso, não há pecado, não há arrogância em pedirmos a Deus o que queremos. Nunca tenha esse medo.

2) Mas, agora vem o ensinamento mais difícil de ser aprendido: quando entregamos a Deus o nosso pedido devemos também entregar, junto com isso, a nossa vontade. Devemos fazer isso, para abrir, voluntariamente, na nossa experiência, o espaço necessário para que Deus opere, para que Deus execute a Sua vontade, que, convenhamos, é sempre melhor e mais acertada que a nossa. "Pai, se não tem outro jeito, que seja do Teu jeito, como Tu queres." É preciso muito relacionamento, muita comunhão, muita confiança para orar, entender e aceitar dessa forma.

Na minha vida pessoal eu vivenciei isso algumas vezes. Numa dessas vezes, ocorrida há alguns anos, eu orei muito a Deus para que me livrasse de passar por uma situação na minha vida espiritual e pessoal, que sempre achei que não precisaria ter passado. Tinha, e ainda hoje tenho argumentos bíblicos fortes para justificar aquele meu pedido a Deus, e sempre tive muita esperança de que pudesse ter sido atendido da forma e no momento que pedi. Além disso, muita gente que gosta de mim, que acompanhou essa experiência, orou da mesma forma.

Já naquele tempo eu estava me envolvendo fortemente com esse tipo de postura que nos leva a colocar esse adendo a todos os nossos pedidos: "Faça-se a Tua vontade". Até mesmo, pra ser bem honesto, sem, interiormente querer dessa forma, eu procurava me acostumar a orar assim. E esse pedido, de que se fizesse a Sua vontade, Deus atendeu. Ainda se passaram de sete a oito anos até que Deus tivesse atendido o meu anseio. Hoje, olhando para trás, entendo que Ele fez, de fato, conforme a vontade dEle, pois a despeito de todas as minhas argumentações teológicas e bíblicas, daquela forma não teria sido o melhor pra mim.

E há situações em que, nessa vida, jamais veremos respondidas as nossas orações da forma como desejamos. Deus responde sempre, creio eu, mas não necessariamente como queremos. O adendo diz: "Seja feita a Tua vontade e não a minha.".

Um dos exemplos bíblicos mais clássicos desse tipo de experiência, é o de Moisés. Ele muito desejou entrar na terra prometida a Abraão e a todos os seus descendentes. E, diga-se a bem da verdade, na nossa visão e na nossa lógica, ninguém mais que ele mereceria essa oportunidade. Por tudo que ele representou para aquele povo, por ter sido o libertador, símbolo do próprio Cristo, por tudo que sofreu, por ter algumas vezes oferecido a própria vida pelo povo rebelde, Moisés deveria entrar, com todas as honras, à frente de seu povo e ocupar a terra que manava leite e mel.

No entanto, Deus não atendeu aquele seu anseio, negou-lhe claramente aquela oportunidade, mas realizou nele a Sua própria vontade, e em troca, lhe deu algo muito melhor. Segundo cremos e segundo a menção que se encontra em Judas 9, o próprio Cristo veio posteriormente resgata-lo das trevas e da morte e lhe concedeu, à frente de todos nós, a entrada na Canaã celestial.

SEJA FEITA A TUA VONTADE, ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU. Essa frase também nos mostra a submissão de anjos e seres celestiais à vontade suprema e soberana de Deus. Criaturas perfeitas, que nunca pecaram, sentem prazer em fazer a vontade do Deus criador, e se submeter aos Seus maravilhosos e benéficos propósitos, todos envoltos em amor.

Quando, enfim, entendermos que o Deus no qual cremos, e no qual depositamos nossas esperanças, além de onipotente, onisciente e onipresente, é também santo, perfeito, infalível e se interessa por nos, oraremos essa frase com muito mais certeza daquilo que estamos pedindo. Até porque, se houvesse uma ínfima possibilidade, por menor que fosse, de nosso Deus falhar ou errar em suas avaliações e propósitos, tudo o mais estaria perdido, esse imenso universo não subsistiria.

Autor: Mário Jorge Lima