Seja bem-vindo(a) ao meu Blog. Sou Mário Jorge Lima, e abaixo estão textos meus, apresentados como sermões, palestras, ou simplesmente frutos de minhas reflexões pessoais.

Sou pai dessas 5 moças ao lado, Mariana, Isabela, Júlia, Laura e Luíza, a quem amo mais que a mim mesmo. Quando escrevo sobre assuntos espirituais, quando apresento palestras ou sermões, é primeiramente para elas e pensando nelas que estou escrevendo e falando.

Esses textos, atualizados sempre que eu os crio, e para isso não tenho uma periodicidade definida, são o legado escrito que deixarei a elas, sem erudição, sem proselitismo, sem "filosofismos". São as coisas em que de fato creio e pelas quais hoje vivo. Se Deus me der o tempo e a chance necessários, ainda pretendo escrever um livro com estas reflexões. Se não conseguir, elas estarão pra sempre aqui nesse Blog.

OBS: As palestras são organizadas com as mais recentes sempre no Topo.

Postado em: sexta-feira, 29 de abril de 2011

1(9) - Reflexões sobre a Oração do Senhor

Vamos iniciar agora uma Série nova, especifica sobre a Oração do Senhor, o nosso conhecido e amado PAI NOSSO. Mas, no programa de hoje queria apenas comentar algumas coisas relevantes sobre a oração, e na próxima semana iniciaremos essa nova Série, que deverá constar de reflexões que farei sobre a Oração do Senhor.
A oração tem sido uma ferramenta poderosa na minha vida pessoal, e entender direitinho o papel da oração no nosso dia-a-dia é algo de muito valor e sobre o qual vale a pena conversar.

Como eu já disse em palestras passadas, a oração é o nosso melhor e mais frequente método de comunicação com Deus. Evidentemente, se você crê nisso, ou seja, se crê em Deus, crê que Ele se interessa por nós e crê que Ele pode nos ouvir. É o método mais fácil, direto, à nossa disposição, porque não depende de local, de hora e nem da situação em que você se encontra. Você pode se comunicar com Deus pela oração, andando, trabalhando, deitado, em situações de perigo ou emergência, em meio a uma festa ou reunião, não ha nenhum empecilho. Dependendo da sua intimidade com Deus, isso é muito simples e rápido.

Vou fazer uma confidência a vocês: diariamente, quando acordo - e eu, por costume, desde criança, acordo muito cedo, sempre em torno das 05h00 da manha, com tudo ainda escuro - não tenho aquele mau-humor matutino que normalmente acomete quem acorda muito cedo, eu dificilmente tenho esse mau-humor, e quando levanto, não levanto sonolento, esfregando os olhos, me escorando nas paredes; eu acordo mesmo, inteiro, pra valer. Esse é um dom, eu reconheço. Vem da minha mãe, já falecida, que também era assim, e me acostumou nesse ritmo.

No entanto, de uns anos pra cá, quando acordo, minha primeira sensação, ainda deitado, é de um certo medo, apreensão pelo que vem pela frente, às vezes até mesmo de angústia, muita preocupação com minha família e principalmente com minhas filhas - tenho cinco -, com a saúde, com o meu trabalho, com a condição do pais, do mundo, etc.

Isso significa que eu acordo ansioso, meio assustado. É bem verdade que isso tem se acentuado com a chegada da idade mais avançada, e à medida que os anos passam. Quando jovem, que eu me lembre, isso não acontecia muito. A criança, o adolescente, o jovem, não têm ainda esse tipo de preocupação ou ansiedade, e isso é bom. Parodiando palavras de Jesus: "basta a cada fase da vida o seu mal".

Mas, ainda deitado, então, eu me apego a essa coisa boa e confortante que é a oração silente e pessoal. Oro muito, ali, antes de levantar, converso com Deus como se Ele estivesse sentado na beira da cama, ou numa cadeira na minha cabeceira. E peço diariamente que não permita que eu me levante da cama se Ele não for comigo.

E digo a vocês: isso é que me tem sustentado e ajudado a iniciar e a passar o restante do dia, em meio a tantos problemas e dificuldades que nos rodeiam e complicam a nossa vida. Tenho aprendido o que vem a ser "orar sem cessar". Orar sempre, em qualquer circunstância e antes de fazer qualquer coisa, desde as mais simples, tipo sair pra comprar um tênis pra uma filha e pedir a Deus que nos ajude a encontrar o melhor pelo menor preço, até as grandes questões que envolvem a família, decisões importantes, compromissos, saúde, trabalho, viagem, negócios.

Vou fazer outra confidência, afinal isso aqui é como se fosse uma conversa, na sala de casa, como se vocês estivessem aqui ao meu lado num agradável bate-papo. Eu trabalho por conta própria, desde 1995, já se vão alguns anos. Tenho uma atividade na área de Internet, com escritório nos fundos da minha casa. Mas, durante mais de 30 anos eu trabalhei empregado, assalariado, e, pela graça de Deus, sempre em boas empresas, algumas multinacionais.

Naquela época, ainda jovem, muito da minha confiança na realização das coisas que eu queria conquistar, pra mim e pra minha família, repousava na garantia que eu tinha, do meu salário líquido e certo no final do mês, da posição que eu tinha nas empresas onde trabalhei, de alguma poupança que conseguíssemos fazer, do tempo que contava para a aposentadoria, do meu bom currículo, da minha idade cronológica, ainda competitiva no mercado.

Então, vejam, mesmo sendo cristão, mesmo tendo consciência da existência de um Deus que cuida de nós, uma boa parte da minha confiança em obter algum sucesso e tranquilidade, residia nessas coisas, confesso isso com muita sinceridade. E eu fico pensando que, para uma boa parte das pessoas bem sucedidas, que tem bastante dinheiro, capital aplicado em investimentos, propriedades, sucesso profissional ou empresarial, capacidade intelectual, isso é também verdade, ou seja, confiam naquilo que tem, naquilo que são, naquilo que sabem.

Quando um dia eu perdi essa condição, e comecei a trabalhar por conta própria, tendo que fazer o meu ganho ao longo do mês, sem ter nenhuma garantia de salário, bens ou investimentos, foi que comecei a me sentir mais dependente de Deus. E dou graças a Ele por isso. E eu acho que foi a partir da perda daquelas condições que me "garantiam" uma boa situação, foi a partir daquele momento que, passei a experimentar essa angústia, medo, apreensão, ao acordar cada dia, a que eu me referi há pouco. Mas, ouçam, foi também a partir daquele momento que eu passei a experimentar o conforto, a paz e a força da oração.

Deus sabe o que faz. Ele vê o futuro, Ele nos ama, e Seu compromisso conosco é para a vida eterna. Nessa vida terrena, temporal, Ele nos concede aquilo que segundo Seu proposito, é para o nosso bem e é o que precisamos, e nem sempre é o que queremos. Mas, o foco principal de Suas promessas é a vida eterna. E a maneira de nos afinarmos, de entrarmos em sintonia com isso, é a oração.

A Oração do Senhor, ou Oração do Pai Nosso, sobre a qual estaremos conversando nos próximos programas, é uma oração modelo. Se alguém me pedisse um resumo bíblico e evangélico da fé cristã e da consciência de ter um Deus, eu daria a Oração do Pai Nosso. É uma oração para ser usada e compartilhada por todos os crentes, por toda a cristandade, não importa sua coloração denominacional. É uma oração radical, poderosa. Mas, é também uma oração simples, uma oração que tem a ver com o nosso dia-a-dia, não com coisas complexas, metafisicas, subjetivas, escatológicas.

Porém, não se enganem, não é uma oração qualquer, não é uma oração fácil de fazer e viver de acordo com o que pedimos e falamos ali. Não é uma oração sem compromisso. Vamos nos deter a partir da próxima sexta-feira, em cada ponto, cada item abordado por suas palavras, e vocês verão que de cada um extrairemos ensinamentos preciosos. Não esquecendo que aquelas são palavras que nos foram dadas pelo próprio Salvador, escolhidas de forma simples, porém, profunda por Sua mente poderosa, e que servem de modelo para as nossas orações pessoais.

Autor: Mário Jorge Lima

Postado em: sexta-feira, 22 de abril de 2011

2(2) - Simbolismos da Páscoa Original

Na semana passada eu estive aqui falando sobre a Semana Santa e sobre a Paixão de Cristo, fazendo um paralelo com a nossa própria paixão. Todos nós temos a nossa paixão pessoal. Entendo paixão aqui como sendo aquela cota de dor, que é inerente à nossa vida nessa terra, à nossa existência, não há como fugir dela. Como disse alguém: a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Mesmo com dor, podemos ter nosso sofrimento amenizado quando temos fé, quando cremos em um Deus que se preocupa conosco.

Hoje em dia temos símbolos modernos da Páscoa, o coelhinho, o ovinho de chocolate, a alimentação sem carne vermelha, etc. Mas nada disso tem a ver com a Páscoa originalmente instituída por Deus.

A Páscoa, estabelecida para os hebreus no Egito, era prenúncio e certeza da libertação. A redenção dos males do Egito era tão certa e notória, após tantas pragas terríveis, que a Páscoa e tudo que ela envolvia, foi como que uma comemoração antecipada dessa libertação. Os simbolismos que se derramam daquela Páscoa original são belíssimos, e todos apontam para o plano de salvação em Cristo Jesus. Pena que nossos irmãos judeus até hoje não hajam compreendido tudo que ela significava, e ainda esperem o Messias, que virá no espírito do Profeta Elias.

Essa ceia chamou-se Seder. À noite, se reuniriam em volta do cordeiro assado, enquanto, pelas ruas, um anjo exterminador dizimaria a população, poupando apenas os ocupantes das casas assinaladas pelo sangue do cordeiro morto.

Vejam alguns simbolismos importantes, que fazem a ligação com o sacrifício de Cristo e a salvação trazida por Ele. Tudo isso esta lá no livro do Êxodo capitulo 12. Não vamos ler, vamos apenas comentar, e você depois com calma leia e medite naquilo que estaremos pontuando aqui.

1) Ninguém deveria comer aquela refeição sozinho. O núcleo da Páscoa era a família, e quem mais quisesse comê-la juntamente. Nos anos 80, eu morava no Rio de Janeiro, em Copacabana, e costumava frequentar as reuniões do Shabat, numa Sinagoga ali na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, às sextas-feiras, e aprendi algumas coisas interessantes. Uma delas foi que o Shabat só tem sentido para um Judeu se ele o come na companhia de algum convidado. O espírito presente na ceia da Páscoa era a união da família, compartilhando a mesma com quem quisesse.

2) Toda a simbologia do Calvário estava ali naquela Páscoa do Egito. O cordeiro devia ser um animal macho, de um ano, sem defeito, perfeito, sem mancha.

3) O cordeiro tinha que morrer e seu sangue deveria, portanto, ser derramado e exposto nos umbrais das portas daqueles que almejavam ser livres da condenação e da morte dos primogênitos.

4) Ele tinha que ser assado inteiro, nenhum osso do cordeiro deveria ser quebrado.

5) Ele era demasiado precioso para sobrar, não deveria sobrar, devia ser totalmente consumido. Por isso, se a família fosse pequena demais para um cordeiro, outra família deveria ser convidada para partilhar, para que nada sobrasse.

6) O cordeiro deveria ser comido acompanhado de pães ázimos, sem fermento, para lembrar que sairiam com pressa do Egito, e ervas amargas, para lembrar do sofrimento do povo no Egito, bem como no deserto à frente, rumo a Terra Prometida.

7) Havia também mais caldo de maçãs, amêndoas, figos e outras frutas cozidas no vinho. Sendo a refeição feita de pé, como quem tem pressa para partir.

A Páscoa hoje, para os cristãos é a festa que comemora a ressurreição de Jesus Cristo. Para os judeus, a Páscoa (Pessach - passagem) é a festa que comemora a saída dos hebreus do Egito, onde eram escravos. Embora sejam acontecimentos diferentes, tanto a Páscoa cristã como a judaica tem o mesmo sentido: a libertação, a passagem de uma situação para outra.

Na Páscoa cristã, Jesus ofereceu seu corpo e sangue assumindo o duplo sentido da Páscoa judaica: sentido de libertação e de aliança. No Novo Testamento, Cristo é o Cordeiro de Deus, sacrificado em prol da salvação de toda a humanidade. É a nova Aliança de Deus realizada por Seu Filho, agora não só com um povo exclusivo, mas com todos os povos.

Há alguns outros detalhes lindos naquele ritual primeiro, da Páscoa original, mas os principais são esses que eu citei. E aquela Páscoa apontava para a Páscoa do Senhor, de corpo presente, quando aqui esteve, aquela tomada com Seus discípulos antes de sair para o Jardim do Getsêmani. E ambas mostram detalhes salvíficos do plano de graça e redenção que Deus proveu para salvação do homem.

Mas eu queria encerrar essa reflexão com um detalhe para o qual só atentei hoje, enquanto escrevia esse texto. Aquela Páscoa original no Egito aconteceu entre a nona e a décima pragas, daquelas que assolaram a terra na tentativa de que Faraó deixasse o povo sair. Em todas as outras pragas Deus, voluntária e espontaneamente livrou a terra dos hebreus, e consequentemente o povo hebreu, de sofrer com elas e de morrer em consequência delas. Eles não fizeram absolutamente nada, nem para merecer nem para efetivamente obter aquela graça. Apenas eram o povo escolhido de Deus, a quem Ele queria salvar. Até ali, eles vinham sendo salvos simplesmente porque eram Hebreus.

Mas antes da décima e última praga, ocorreu uma mudança, e foi introduzido um importante detalhe. Agora, para alcançar a libertação final, o povo hebreu devia mostrar que queria de fato aquela tão grande salvação. Ali, eles teriam que cooperar com Deus para que fossem salvos. Não seria nenhuma obra que tivesse em si mérito próprio para pagar sequer uma ínfima parte daquela libertação. Mas teriam uma parte a fazer, teriam que demonstrar atitude, vontade, decisão.

Era necessário dizer: sim, eu quero, eu creio nisso. E como fariam aquilo? Pegando o sangue do cordeiro morto e espalhando nos umbrais das portas de suas casas. Agora, eles seriam salvos não porque eram hebreus, não porque eram descendentes de Abraão, não porque tivessem sofrido a escravidão por 430 longos anos. Eles seriam salvos se acreditassem, e se colocassem debaixo da salvaguarda do sangue do cordeiro.

O que eu vou dizer agora, não está na Bíblia, mas eu acredito que possa ter acontecido, porque faz sentido com a salvação em Cristo Jesus. Isso chegou a ser retratado no famoso filme OS 10 MANDAMENTOS, de Cecil B. de Mille: é possível que alguns da terra tenham se juntado às famílias hebreias para comer aquela Páscoa e assim ficaram sob a salvaguarda do sangue do cordeiro, e salvaram seus primogênitos. Da mesma forma, em contrapartida, talvez algumas famílias hebreias não tenham executado o procedimento do sangue nos umbrais de suas portas, e assim, infelizmente, perderam seus primogênitos.

A salvação não é privilégio de um povo, de uma igreja, a salvação é privilégio de todo aquele, Judeu ou Grego, rico ou pobre, livre ou servo, culto ou inculto, que, tendo fé no sacrifício do Cordeiro de Deus, se lava em Seu sangue, espalha-o na porta de seu coração, e assim fica livre da morte eterna.

E não se enganem, aceitar a salvação em Cristo Jesus, aceitar Seu sacrifício e Sua graça como a única garantia dessa salvação e da vida eterna, não é, de modo algum, licença pra continuar vivendo de qualquer maneira, do jeito que bem quisermos. Todo aquele que aceita a Cristo e Sua graça, muda de vida. Essa mudança de vida se manifesta, de forma natural, no trato pessoal, nos gostos, nos interesses, na conversa, nos objetivos, na vontade de ficar pertinho de Deus e não pecar contra Ele, na disposição para que Deus opere e transforme o coração. É resultado de estar ligado na videira verdadeira, é consequência da salvação.

Só que isso não pode constituir nenhum esforço, não pode ter a intenção, ou melhor, ilusão de comprar a salvação, de merecê-la, de pagar por ela, não pode ser moeda de troca com Deus nessa questão. Eu sempre digo: nossa pobre e rota obediência, nossa difícil submissão aos reclamos de Deus, não constituem o centro do Evangelho. O centro do Evangelho é a graça de Deus, obtida através da fé. Qualquer coisa boa que apresentemos não nos faz melhores que nosso semelhante, não compra o favor de Deus, não tem absolutamente nenhum papel salvíficos, é puro fruto do evangelho em nossa vida.

Pense nisso, nos simbolismos lindos da Páscoa original, e seja salvo, obtenha a vida eterna, não por pertencer a esse ou aquele povo, não por frequentar essa ou aquela igreja, não por achar que obedece aos mandamentos de Deus, mas simplesmente porque aceitou os méritos do Cordeiro, creu nisso, e espalhou o sangue dEle nas portas de seu coração.

Autor: Mário Jorge Lima

Postado em: sexta-feira, 15 de abril de 2011

1(2) - Semana Santa

Estamos no período do ano conhecido como Quaresma, que são os quarenta dias que antecedem a Páscoa dos cristãos. Ela começa logo após o Carnaval (Quarta-feira de Cinzas) e termina na chamada Quinta-feira Santa. E essa semana, que termina no domingo de Páscoa, é chamada pelo mundo cristão de Semana Santa.

Vamos rememorar rapidamente a última semana do Salvador em nosso planeta, em carne e ossos humanos. Aquela tinha sido uma semana bastante agitada. Desde o domingo anterior, com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (que é comemorada hoje pelos nossos irmãos católicos como Domingo de Ramos), passando pela purificação do templo, debate com líderes religiosos, o discurso no monte das Oliveiras, a última Ceia, a agonia no Getsêmani, a traição de Judas, o abandono geral. Foi tudo um grande e prolongado estresse.

A madrugada, de quinta-feira para sexta-feira, Jesus passou em claro, tendo enfrentado pelo menos seis situações de acareações e julgamento. Juntando as narrativas dos quatro Evangelhos, reconstituímos os julgamentos, pela ordem: Anás (sumo sacerdote licenciado), Caifás (genro de Anás e sumo sacerdote daquele período), o Sinédrio, Pilatos (governador da Judéia), Herodes (Antipas, tetrarca, uma espécie de governador da Galileia) e novamente Pilatos.

Foram três julgamentos religiosos e três julgamentos políticos. Apesar de toda a disposição de condená-Lo, nenhum deles conseguiu, em sã consciência, encontrar qualquer culpa em Jesus, e essa com certeza era a razão daquele empurra-empurra de um para o outro.

Mas, eu quero me ater, nessa reflexão de hoje, aos três dias principais deste período chamado santo, durante os quais todo o plano de redenção da humanidade foi testado, executado, cumprido em seus mínimos detalhes, e se mostrou capaz de produzir graça plena, salvação e vida eterna. Refiro-me à Sexta-feira, ao Sábado e ao Domingo. Ali aconteceu o que nós conhecemos como Paixão de Cristo. E quero fazer um paralelo rápido deles, ou seja, daqueles três dias, com momentos da nossa vida. Nós também temos a nossa Paixão.

Aliás, uma explicação: Paixão, aqui, não significa esse sentimento rápido e maluco que muitas vezes acomete a nós, seres humanos, que é confundido com o amor, e assim se torna responsável por tantas tragédias, crimes e sofrimento. Aqui, significa um sofrimento muito grande, muito intenso.

SEXTA-FEIRA, chamada de Sexta-feira da Paixão ou Sexta-feira Santa. Foi um dia de trevas, dia de horror, dia de confusão, dia de abandono, dia de angústia e muita tristeza, dia de frustração, de planos não realizados, sonhos acabados. Ali a maldade, a intolerância, a ingratidão e a estupidez humana tiveram o seu ápice, tiveram o seu ponto máximo. Ao vivo e a cores, para todo o universo criado, a violência do ser humano e sua rebelião contra Deus se mostrava de forma chocante e cruel.

Não é assim na nossa vida? Não há momentos em que parece que todas as forças negativas do universo contribuem para o nosso desconforto, a nossa infelicidade? Não vemos saída, não vemos uma porta aberta sequer. São problemas de relacionamentos desfeitos, sonhos abandonados, injúrias sofridas. São dificuldades financeiras, problemas profissionais, desemprego, grandes prejuízos, derrotas pessoais. É a saúde abalada por doenças sérias ou até mesmo terminais, morte na família ou de amigos muito queridos. A lista é muito grande. Há quem já tenha sofrido de tudo um pouco. É a nossa sexta-feira da paixão pessoal.

SÁBADO, chamado de Sábado de Aleluia. Eu o chamaria de Sábado do abandono, da perplexidade. Após toda a angústia e crise da Sexta-feira, agora temos ali um Sábado de terrível silêncio, de medo para os discípulos e amigos de Jesus, de aparente derrota, de desesperança, e pior que tudo, do mais absoluto silêncio de Deus. Parecia que todas as promessas e profecias bíblicas de livramento e triunfo sobre a tirania e opressão tinham falhado. E Deus não disse nada, não fez nada, ficou calado, não interferiu, não evitou aquela tragédia, não salvou Seu próprio Filho do sofrimento e da morte.

Quantas vezes em nossa vida, em meio a nossos problemas e aflições, nossa angústia e nossas necessidades de todo tipo, nos sentimos desamparados, esquecidos, e sem nenhum retorno da parte do Deus em Quem acreditamos. Nossa fé - quando possuímos alguma fé - vacila, nossa esperança acaba, não vemos nenhuma luz, nenhuma saída. E o pior: silêncio total de Deus. Ele parece não ouvir e não responder as nossas orações. Não evita e não nos livra dos males que buscávamos não ter que sofrer ou passar. Duvidamos da Sua existência, ou pelo menos do Seu interesse por nós. Sábado do silêncio, da sepultura, da espera. Eu disse Sábado da espera.

DOMINGO, chamado de Domingo da Ressurreição. E foi de fato um dia maravilhoso. A Bíblia chega a dizer que, sem a ocorrência da Ressurreição, seria vã a nossa fé, ou seja, não teria nenhum significado, nenhum valor, nenhuma razão de ser. Jesus, apesar de ter vida em Si mesmo, outorgada pelo Pai, como diz o texto de João 5:26, atendeu a voz do magnífico anjo que, por ordem do Pai, veio chamá-Lo da escuridão do inferno para a luz da vida. Essa Ressurreição, na sequência daquele tempo de espera ao longo do Sábado, garante também a nossa futura ressurreição, daqueles que estarão dormindo o sono da morte por ocasião da volta de Jesus.

No paralelo que estamos fazendo com a nossa vida, também temos o nosso Domingo da Ressurreição. É quando, após terrível sofrimento, angústia, medo e desesperança, e sem ouvir ou sentir qualquer retorno da parte de Deus aos nossos pedidos e orações, de repente, a luz surge, a oportunidade aparece, a situação muda, o ânimo reacende, a esperança cresce, as mudanças começam a acontecer, a fé é fortalecida, as coisas começam novamente a fazer sentido.

Então, nascemos de novo! Ressurgimos! Pode ser um renascimento espiritual. Pode ser um renascimento emocional. Pode ser um recomeço profissional. É sempre uma mudança de vida, novos propósitos, novos planos, vontade de viver. De viver pra sempre.

Finalizando, o que eu quis transmitir a vocês? Algo pelo qual passei várias vezes na vida, e ainda passo, e estou passando. E tenho certeza que cada um de vocês, independente de seu poder econômico ou financeiro, da sua posição social ou política, daquilo que você tem ou daquilo que você é, também passou, está passando ou certamente passará.

Assim como aconteceu com Cristo, todos também temos a nossa Paixão pessoal. Como eu disse, Paixão no sentido de sofrimento intenso, angústia, desesperança e medo. Todos, sem exceção. Ninguém passa por essa vida sem enfrentar esses momentos, seja governante ou governado, senhor ou servo, rico ou pobre. Todos temos a nossa Paixão, o nosso Calvário.

Mas quando isso acontecer, não esqueçam disso:

. Cristo teve a sua Sexta-Feira da tragédia e da dor, sem livramento. Na nossa vida, teremos a dor e o sofrimento da tragédia ou do inesperado da vida.

. Cristo teve em seguida o seu Sábado de escuridão, sem ouvir a voz de Deus, completo silêncio, mas um Sábado de espera. Nos também passaremos muitas vezes por momentos de aparente abandono, perplexidade, numa espera silenciosa pela manifestação de Deus.

. Mas Cristo teve por fim, o seu renascer glorioso, o seu ressurgimento para a vida, e melhor que tudo, saiu da morte eterna para a vida eterna. Nós também teremos, certamente, o ressurgimento da esperança, a superação das dificuldades, teremos oportunidades e situações novas, um caminho que pode ser diferente do que estávamos trilhando, mas será sempre um caminho vivo e novo, na direção daquelas coisas que o propósito de Deus reservar para cada um de nós.

Ouçam, não é sempre que conseguimos enfrentar a adversidade com esse pensamento organizado, bem estruturado, que eu rapidamente expus nessas reflexões. Aqui, escrevendo ou falando, ou quando vemos isso acontecer na vida de outras pessoas com as quais não temos ligação afetiva, parecer ser bem fácil, tranquilo e tremendamente lógico de entender. Mas na hora em que a situação difícil e dura nos acomete, aí a coisa é bem diferente, vacilamos, nos desesperamos, ficamos perplexos ou com os reflexos estagnados, paralisados, mortos.

Mas isso também faz parte do processo de crescimento espiritual. É na crise que crescemos. Ninguém cresce fora da crise, ninguém adquire experiência a não ser na provação, ninguém aprende apenas com a experiência do outro. Marinheiro que nunca enfrentou um mar revolto, e não se preparou para isso, quando a tempestade acontece, se desespera e morre afogado.

Quero deixar com vocês uma das expressões mais doces de toda a Bíblia. Juntamente com o maravilhoso "Vinde a Mim todos que estais cansados e oprimidos", essa outra expressão é comovente e confortadora. Ela diz assim: "Não temas". Encontra-se espalhada por toda a Bíblia, mais de uma centena de vezes, proferida em diversas ocasiões pelos mais diferentes personagens. Mas a que eu quero deixar aqui, foi proferida pelo próprio Deus, através de Seu profeta Isaias, no capitulo 43:1:

"Mas agora, assim diz o SENHOR, que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu."

Autor: Mário Jorge Lima

Postado em: sexta-feira, 8 de abril de 2011

6(6) - Como me relacionar com Deus - O Serviço de Amor

Eu disse aqui na sexta-feira retrasada que Jesus quando veio a esse mundo, veio fazer basicamente uma coisa: buscar e restaurar relacionamentos. E detalhei que isso se refere a relacionamento no sentido horizontal, ou seja, entre o homem e seu semelhante, como relacionamento no sentido vertical, isto é, entre o homem e Deus.

Esses dois tipos de relacionamento haviam sido profundamente quebrados, com fratura exposta e hemorrágica, aos olhos de todo o universo inteligente. E teria ficado assim, definitivamente, se Deus não tivesse interesse em Se relacionar com o ser humano.

Pensem bem numa coisa que vou dizer com muita clareza: Deus não era obrigado a resgatar o ser humano. Não era. O homem e sua companheira haviam pecado, ou seja, se desviado de Deus, indo frontalmente contra a Sua vontade. Deus poderia simplesmente, ali naquele inicio, como costumamos dizer, "ter cortado o mal pela raiz". E se tivesse feito isso, teria sido absolutamente justo, teria honrado Sua lei, Sua vontade se faria respeitar e Seu caráter estaria preservado.

Mas permitam-me dizer, sem medo de estar dizendo uma blasfêmia: Ele teria sido justo, mas não teria sido misericordioso. E o caráter de Deus tem essa dualidade: Ele é ao mesmo tempo justo e misericordioso. "As misericórdias do Senhor não tem fim" já dizia o nosso querido profeta Jeremias. Aleluia por essa segunda característica do caráter de Deus!

E Deus desceu ao nosso mundo, na pessoa de Seu Filho, nosso Salvador. Com Sua pregação, Seus ensinos, Seu exemplo e Seu amor, Cristo ensinou como consertar relacionamentos entre seres humanos. E com Sua morte Ele restaurou, de uma vez por todas, o relacionamento entre a humanidade e Deus, derrubando uma "parede de separação" que havia sido colocada.

La em Efésios 2:13, Paulo diz assim:

"Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo."

Já falamos nas palestras passadas sobre duas maneiras importantes de estar em comunhão com Deus: a ORAÇÃO e a LEITURA DA BÍBLIA.

A Oração, sempre uma via de mão dupla, ou seja, falamos, agradecemos, louvamos, intercedemos, suplicamos, mas também temos que ouvir a voz de Deus, ou a comunicação não será completa. Aliás, na presença de Deus, o que menos precisamos é falar, pois Ele tudo sabe. Nossa maior necessidade é ouvir Sua voz, é ouvi-Lo através da impressão do nosso pensamento.

A Leitura de Sua Palavra, a Bíblia Sagrada, sempre com oração e com coração aberto. Não para encontrar argumentos brilhantes para reforçar aquilo em que cremos ou mostrar que estamos certos e o resto do mundo errado, mas para encontrar ali o que a Bíblia tem de melhor: Cristo Jesus e Sua graça salvadora.

E hoje, rapidamente, quero dar algumas poucas pinceladas sobre o terceiro modo à nossa disposição, para estabelecer comunicação intensa entre um ser humano e outro, e entre Deus e os seres humanos: o Serviço de Amor. Eu me refiro aqui à religião posta em prática. Refiro-me ao amor ao próximo.

Pensem nessa cena: Jesus estava iniciando Seu trabalho redentor aqui nessa Terra. Havia passado pela tentação no deserto. Vencera Satanás em seu próprio território. Tinha voltado para a Galileia e Sua fama já corria em toda aquela região. Resolveu visitar Sua cidade, Nazaré, e então, seguindo Seu costume judaico, foi à sinagoga num Sábado, onde lhe deram o livro do profeta Isaias para que lesse.

Jesus viu ali uma oportunidade para anunciar o Seu ministério e o que tinha vindo fazer nesse mundo. Seria uma manifestação pública importante. E então, surpreendentemente, ao invés de abordar temas relacionados com justiça de Deus, com obediência aos preceitos da Lei, com profecias escatológicas, o Mestre escolheu o texto messiânico de Isaías que dizia:

"O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor." Luc.4:18-19.

Interessante, que lendo essa profecia lá no livro de Isaías (Is. 61:1-11) podemos ver que ela tem toda uma parte escatológica, de final dos tempos, fala ate em "Dia da vingança do nosso Deus". Mas Jesus parou antes dessa parte, parou ali, naquela primeira parte que acabamos de ler. Isso talvez mostre que tudo tem seu tempo, sua hora, para ser ensinado, para ser apregoado. Ali, Jesus estava anunciando Seu ministério terrestre de graça e salvação, em outras palavras, estava anunciando a chegada do Reino de Graça, e lhe interessava dar as diretrizes gerais do mesmo.

Voltando então ao texto, ao falar em coisas como "evangelizar os pobres", "libertar os cativos", "restaurar vista aos cegos", "pôr em liberdade os oprimidos", "apregoar o ano aceitável do Senhor", Jesus estava falando em se relacionar profundamente com a raça humana, cuidar das suas mazelas, dos seus males imediatos, e trazer a eles a esperança de vida eterna.

Fazendo uma ligação disso com o tema da nossa conversa de hoje, que é relacionar-se com Deus através do serviço dedicado de amor ao próximo, eu diria que essa é a forma adequada e indiscutível dada por Deus, de demonstrarmos que guardamos os Seus mandamentos. Amá-lo em primeiro lugar, relacionando-nos com Ele, e amarmos ao nosso semelhante, relacionando-nos com eles.

Finalizando nossa conversa de hoje, quero comentar sobre uma palavrinha especial, que tem sido muito usada hoje em dia no meio cristão. DISCIPULADO. Há varias definições e divagações em torno disso, mas simplificando: discipulado significa nada mais nada menos que relacionamento de aprendizado profundo e constante entre mestre e aluno, mestre e discípulo. Significa o discípulo procurar cada vez mais, ser semelhante ao seu Mestre. E num discipulado maduro, isso acontece tanto, que o discípulo então é estimulado a fazer outros discípulos. Então discipulado envolve todo esse processo, de nos relacionarmos, aprendermos e então ensinarmos a outros. Tudo bem quanto a isso? Podemos concordar sobre isso? Então vamos em frente.

Vocês sabem qual é a maior prova de discipulado cristão? Sabem qual é a maior prova de que estamos de fato nesse processo de aprendizado e relacionamento com Deus para nos tornarmos mais semelhantes ao Mestre? Alguns podem pensar, num primeiro momento que é a obediência, ou que é o louvor e adoração, ou que é a atitude de oração, ou que é filiar-se a uma igreja, ou que é a mudança de vida. Não, não é. Pelo menos não é o que a Bíblia diz muito claramente lá em Joao 13:35: "Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros." A maior prova de discipulado é, portanto, o AMOR.

Vocês conhecem aquela cena simbólica de juízo e de separação dos bodes e ovelhas, narrada por Cristo lá em Mateus? Ele não cobra ali de ninguém coisas relacionadas com conhecimento doutrinário, com obediência cega e fria aos Seus preceitos, com liturgias e processos cerimoniais. Mas ele cobra ali o que foi feito aos Seus pequeninos, o que foi feito àqueles que estavam nus, com fome, com sede, em prisões.

É isso ai. Amor ao próximo, amor entre irmãos, religião prática. E antes que alguém possa pensar ou dizer que eu estou aqui pregando "justiça própria" ou "salvação pelas obras", eu quero dizer que não, não estou. O que eu estou falando é sobre fruto do Espirito. O mesmo Jesus, falando ainda sobre discipulado, disse assim, em Joao 15:8: "Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos.".

Ouçam, eu não estou falando pra vocês. Estou primeiramente falando pra mim. Toda essa conversa minha com vocês aqui, a cada semana, é como se eu estivesse pensando em voz alta e conversando diante do espelho, falando pra mim mesmo e pra minha família. Se puder ajudar a alguém mais, maravilha.

Falamos hoje, então, sobre a terceira e última maneira (dentre as que eu pretendia abordar) que temos para nos comunicarmos com Deus, num processo de relacionamento contínuo, que é: viver uma vida de serviço de amor, mas não usando isso como moeda de troca com Deus na questão da salvação, e sim como fruto do Seu Espirito agindo em nós.

Autor: Mário Jorge Lima